• Talita Gantus

A agroecologia como construção contra-hegemônica

Atualizado: Abr 14

“Que me deem uma boa razão para que os jovens se apaixonem pela ciência. Para isto seria necessário que os cientistas fossem também contadores de estórias, inventores de mitos, presença mágica em torno das quais se ajuntassem crianças e adolescentes.“

Rubem Alves se sentiria realizado vivenciando o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia. O evento teve como eixo temático principal: Ecologia de Saberes: Ciência, Cultura e Arte na Democratização dos Sistemas Agroalimentares. Sendo realizado em São Cristóvão, na Universidade Federal de Sergipe, mostrou que “o semiárido brasileiro é espaço de vida. Tem gente forte e trabalhadora, que resiste; em terra ardente, ‘doida’ para produzir; tem planta; tem animal; tem riqueza cultural”.


A Ecologia de Saberes vem sendo apresentada como um conjunto de epistemologias contra-hegemônicas a favor da equidade de diálogo e da construção partilhada do conhecimento entre diferentes sujeitas e sujeitos da Agroecologia.

Sob a égide da valorização cultural diversa e plural, várias formas de manifestações foram pano de fundo para debates importantes, profundos e estruturantes. Como nos diz Maicon Catingueiro, cordelista da Rede Paraibana de Núcleos de Agroecologia:


“Valorizando os saberes

Da cultura popular

Dos indígenas e quilombolas

Nos ajudam a caminhar

Fortalecendo a agroecologia

Pra os povos empoderar

Foi através da resistência

Que chegamos até aqui

Disputando os territórios

Pra podermos existir

Um mundo agroecológico

É o que queremos construir”.

A Agroecologia apresenta um conjunto de pressupostos fundamentais ao desenvolvimento rural sustentável e à própria organização da sociedade como um todo.

A sociedade humana atual vive uma ampla e grave crise. É uma crise de várias e profundas dimensões: econômico-financeira, energética, ambiental, sociocultural, política, tecnológica, alimentar, de solidariedade e ética. O consumo compulsivo, a necessidade de se ter e se buscar sempre a maior quantidade de bens e poder, a acumulação apenas pela acumulação, a falta de pensamento autônomo e crítico.

Por meio de um progresso desordenado e questionável, a expressão da crise de nossa civilização nos tem levado a uma prisão paradigmática: um crescimento econômico desvinculado do desenvolvimento social, e que ignora os custos ambientais.


A atual crise agroalimentar é uma das expressões da crise internacional da globalização.

Segundo Mário Artêmio Urchei, agrônomo da Embrapa, “apesar da crescente industrialização da produção agrícola convencional e do trabalho cada vez mais intensivo de inovações e de tecnologias, que implica em um aumento da produtividade, mas também em maior consumo de energia, a fome e a insegurança alimentar e nutricional no mundo têm crescido sistemática e constantemente”.


A chamada revolução verde – modelo de agricultura baseado na produção em monocultivos de larga escala para a exportação (em especial de commodities), no uso intensivo de insumos químicos industriais derivados do petróleo, como adubos e pesticidas, na utilização de máquinas e implementos agrícolas de grande porte e nas sementes melhoradas de alta produtividade – não conseguiu solucionar os problemas ambientais e sociais de acesso aos alimentos e de combate à fome e à insegurança alimentar e nutricional. Tema debatido desde a primeira metade do século passado por Josué de Castro. Um importante geógrafo brasileiro pernambucano, cuja trajetória intelectual se confunde com os marcos norteadores da Política de Segurança Alimentar no Brasil.


Pelo contrário, a agricultura convencional de larga escala tem aumentado a concentração de renda, de terra e dos meios de produção, com consequências significativas na ampliação da pobreza, da fome e da exclusão social.


Há um número cada vez maior de exemplos dos impactos econômicos, sociais e ambientais negativos desse modelo, como: esgotamento do solo; erosão; alteração do ecossistema para a implantação da lavoura; desmatamento; dependência das grandes indústrias que produzem as sementes transgênicas, os fertilizantes e os agrotóxicos; assoreamento e contaminação dos mananciais hídricos e dos alimentos por agrotóxicos; priorização à estrutura latifundiária, prejudicando a produção familiar e fomentando o êxodo rural.


Em contraposição a esse modelo de ‘desenvolvimento’ socioeconômico seletivo, a Agroecologia visa a conservação e a regeneração dos recursos produtivos através de ações sociais coletivas, fundamentadas no conhecimento sobre a agrobiodiversidade, e no uso de tecnologias de baixo impacto que potencializem as funções ecológicas do sistema.


Essa ciência se constitui numa realidade concreta de construção de novos conhecimentos que partem da interação entre a biodiversidade ecológica e sociocultural local, dos saberes dos agricultores e dos técnicos envolvidos no processo de desenvolvimento, e desses com outros atores sociais do campo e da cidade. Nesse sentido, ressalta-se a importância do conhecimento dos saberes tradicionais, pois é em comunhão com o conhecimento dos atores locais sobre o manejo e o potencial da agrobiodiversidade que a Agroecologia busca atuar.


Acima de tudo, é necessária uma mudança na interação entre os seres humanos e a Terra. Para que a relação sociedade e a natureza não seja tratada meramente como uma questão econômica.

Nesse contexto, teias articuladoras lançam provocações para um olhar ampliado, atento e sensível ao vasto repertório de conhecimentos que emergem do diálogo entre arte, cultura e ciência. Independente da fonte na qual essa ciência nasce, seja no crivo acadêmico, seja nas reproduções de história oral dos saberes tradicionais.

Essas mesmas teias apontam algumas possíveis estratégias coletivas e populares que se fundamentam na construção da autonomia de sujeitas e sujeitos, os quais buscam modos de vida [realmente] mais sustentáveis.


Precisamos construir mais pontes rumo a esse novo mundo possível, e não derrubá-las!


Produção de farinha de mandioca orgânica pelo MST. (Foto: Talita Gantus)


Conversa sobre a importância da cultura regional alimentar, conduzida por lideranças e ativistas indígenas das etnias Marajoara, Pataxó e Tupinambá. (Foto: Talita Gantus)


Valorização da cultura e da arte no Congresso Brasileiro de Agroecologia.

(Foto: Talita Gantus)

74 visualizações
  • a_Ponte
  • iconfinder_social-whatsapp-circle_401733
  • Instagram
  • Twitter
  • Facebook
  • LinkedIn
  • YouTube