• Bárbara Zambelli

Acesso à água potável, equidade de gênero e geociências

Atualizado: Ago 27

Que o acesso da população à água potável é de suma importância, ninguém duvida. Porém, sua relação com equidade de gênero e desenvolvimento sustentável ainda não é muito clara para grande parte da sociedade. Neste artigo, eu exploro essas relações intrínsecas e discuto como geocientistas podem atuar para assegurar a segurança hídrica e contribuir com a redução da desigualdade de gênero.


De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, cerca de 2,1 bilhões de pessoas não tinham acesso à água potável - livre de contaminação - disponível nos lares quando necessária. Isto significa que, de cada 10 pessoas no mundo, 3 não têm certeza de que sairá água potável quando abrirem suas torneiras (se houverem torneiras!). Esse número inclui 844 milhões de pessoas sem acesso a serviços básicos de abastecimento (mais do que a população da Europa!), além de 263 milhões que precisam caminhar por cerca de 30 minutos para coletar água, e 159 milhões que ainda bebem água superficial não tratada.


Em 2015, a ONU lançou a Agenda 2030, composta por 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), subdivididos em 169 objetivos específicos. Essa agenda, dá continuidade às discussões iniciadas na Rio + 20 em 1992, com a definição da Agenda 21, revista em 2000 com o lançamento das 8 Metas do milênio pela ONU.


O objetivo 6 da Agenda 2030, que é relativo à água, enuncia:


“Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos até 2030”.

Nesse link é apresentado o plano de ação do Governo Brasileiro entre os anos 2017-2019 (o mais recente disponível online) para assegurar que as metas sejam cumpridas até a data estipulada.


Mas, como a falta de acesso à água impacta especialmente a vida das mulheres?


Em várias culturas, mulheres e meninas tendem a ser as responsáveis pela coleta e gestão doméstica da água. Ela não é utilizada somente para beber e cozinhar, mas também para a limpeza, lavanderia, higiene pessoal, cuidados com animais domésticos, dentre outros. Dessa forma, as mulheres são diretamente afetadas pela escassez hídrica, muitas vezes agravada pelas mudanças climáticas e pelos desastres naturais.


O Rio Ganges é considerado sagrado pelos indianos. Suas águas são utilizadas para banhos, lavanderia, funerais, consumo de animais, uso industrial, dentre outros. Por outro lado, ele recebe dejetos industriais, esgoto não tratado e muito lixo. (Foto tirada em Varanasi (Índia) em 2019 por Bárbara Zambelli)


Água subterrânea na Índia


De acordo com o Banco Mundial, a Índia consome aproximadamente 230 km³ de água subterrânea por ano, sendo o maior usuário no mundo desse tipo de recurso. Cerca de 85% de sua água potável vêm das fontes de água subterrânea. Essa exploração causa um cenário de escassez hídrica para consumo humano e para agricultura, especialmente em épocas de seca, tanto nas bacias hidrográficas do Guajarat quanto nas do Rajastão (regiões semi-áridas da Índia). Nessas áreas, os aquíferos estão localizados em rochas duras, apresentam baixa conectividade e capacidade limitada de armazenamento, o que acarreta grandes flutuações do nível freático.


Chand Baori, localizado no Rajastão, é o reservatório de água (stepwell) mais profundo da Índia, com 3.500 degraus. Seu objetivo é coletar água superficial durante o período chuvoso para que ela seja utilizada pela comunidade nos meses de seca.

(Foto: Wikimedia Commons CC-BY-SA-3.0)


Na bacia hidrográfica de Dharta (Rajastão), as tendências estatísticas dos últimos 20 anos têm mostrado uma taxa líquida de esgotamento das águas subterrâneas. Uma pesquisa realizada em oito escolas secundárias, no Rajastão e em Guajarat, relacionou a escassez de água com a abstenção de mulheres nas escolas. O objetivo principal foi avaliar a percepção das estudantes sobre oportunidades educacionais interligadas à falta de água.


Como resultado dessa pesquisa, mais de 90% das estudantes entrevistadas, em ambas as regiões, identificaram a escassez hídrica como uma questão central. Cerca de 95% reportaram que, além de seus estudos, elas também estão envolvidas com os afazeres domésticos. Geralmente, as mulheres são responsáveis, além da coleta de água, por cozinhar e tomar conta de seus irmãos mais novos, enquanto os homens são responsáveis pelos serviços agro-pastoris. Elas também associam diretamente sua abstenção escolar à demanda por tarefas do lar.


Nesse sentido, espera-se que o aumento da escassez hídrica tenha um peso diferente entre os gêneros, já que as mulheres precisarão andar distâncias cada vez maiores encontrar água, restando a elas menos tempo para se dedicarem aos estudos.

A escassez hídrica foi identificada por 77% das entrevistadas como sendo um fator primário que influencia sua frequência escolar.

Como os geocientistas podem atuar?


As águas subterrâneas são um recurso precioso para as comunidades. Apesar disso, otimizar seu potencial pode ser algo desafiador. Primeiramente, porque elas não estão distribuídas uniformemente no subsolo, ou seja, não podem ser encontradas aleatoriamente em qualquer lugar, o que torna arriscado o mercado de perfuração de poços. Em segundo lugar, a quantidade e a qualidade da água bombeada de um poço pode variar dentro de alguns metros no mesmo poço.


Geocientistas podem atuar, por exemplo, na demarcação adequada para o poço. Isso requer profissionais com treinamento adequado, experiência em alocação poços e conhecimento sobre investigações hidrogeológicas. Esse profissional pode ser um geólogo, um hidrogeólogo ou um engenheiro com bom conhecimento em geociências.


Uma abordagem consistente para a efetiva alocação dos poços envolve a identificação das feições no solo/subsolo que possam ser favoráveis à ocorrência de águas subterrâneas, a seleção dos métodos geofísicos mais adequados (caso necessário), a interpretação de dados e consultas às partes interessadas.


O diálogo com a comunidade é importante para entender suas necessidades, e, dessa forma, realizar a alocação de forma mais efetiva para os usuários.

Os profissionais precisam elencar as potenciais fontes de contaminação da água subterrânea, como latrinas, cemitérios, postos de gasolina e outras fontes de poluição. Também é necessário o contato com o superficiário, caso o poço previsto esteja em área privada, para checar as questões de acesso à área pela comunidade.


Caso tenha interesse, nesse link pode ser baixado um guia sobre alocação de poços (em inglês).


O acesso à água potável é fundamental para garantir que mulheres e crianças em todo o mundo tenham melhor acesso à educação, e, consequentemente a melhores empregos e salários. Dessa forma, contribuir para o cumprimento dos Objetivos 5 (equidade de gênero) e 6 (acesso à água potável) dos ODSs.


Texto originalmente publicado em https://bit.ly/2RxMIfS, em 30 de novembro de 2017.


Traduzido por Joana Morais. Revisado e editado por Bárbara Zambelli.


Bárbara está no twitter e instagram como @taiobarbara e pode ser contactada pelo email ba.zambelli@gmail.com


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