• Bárbara Zambelli

CArta aberta à comunidade geológica

Rio de Janeiro, 09/10/2019

(atualizada em 29/05/2020)


DISCLAIMER: Seguem linhas cheias de devaneios e emoções.


Caros colegas de profissão, aqui me encontro, nessa situação um tanto quanto inusitada, a escrever sobre minhas angústias e esperanças. Decidi o fazer depois de conversar exaustivamente sobre isso com amigos, colegas, até mesmo com desconhecidos. Meu questionamento principal aqui é: como você, geóloga ou geólogo, se coloca no mundo? 


Olha bem pra essa minha carinha e reflita um pouco sobre a pergunta que acabei de fazer... (Foto: Bárbara Zambelli, região cárstica de Yangshuo, Guilin, no sudeste da China)


Como a geologia é uma ciência muito ampla e interdisciplinar muitos de nós seguimos caminhos diferentes, naturalmente. Eu, vinda de Minas Gerais, do Quadrilátero Ferrífero, estive por muito tempo inserida num contexto de exploração mineral. Por quantas vezes ouvi daquele tio no churrasco que eu ia ficar rica trabalhando com mineração. Tenho de fato alguns amigos que ganham um bom dinheiro com isso, e tudo bem. Mas esse não é meu caso. 


Eu, desde o início, busquei na geologia uma compreensão acerca da dinâmica e dos processos de transformação do Planeta. Sempre me interessei muito pela ciência e também por suas aplicações. Me interesso pelo Planeta e busco compreender como nossas ações cotidianas o afetam. E como isso gera um ciclo de retroalimentação, porque a maneira com que o mundo reage ao comportamento e à ganância humana também afeta a maneira com que agimos.


Entrei na geologia com muitos sonhos e sai um pouco arrasada. Muito disso se deve a uma percepção que fui desenvolvendo ao longo dos anos de faculdade. Entendi que os ensinamentos sobre a dinâmica terrestre servem na verdade para identificar e explorar jazidas minerais. E mais uma vez, tudo bem também. Não sou hipócrita de achar que a gente sobrevive sem mineração, eu sei que agora não dá. Mas vindo de Minas Gerais e conhecendo o sudeste do Pará, as maiores províncias minerais desse meu rico país, eu vi com meus próprios olhos o que a mineração pode causar. É uma imensa gama de impactos ambientais, sociais e econômicos. Ainda há a ilusão de que a mineração traz progresso, desenvolvimento, sem a percepção de que o dinheiro gerado serve para o aprofundamento das desigualdades sociais.


Os royalties da mineração são ínfimos (2% do lucro líquido anual para minério de ferro) e não tem uma destinação precisa - como os certeiros investimentos na diversificação das fontes de arrecadação. Com incentivos fiscais pela Lei Kandir, o Estado deixa anualmente de arrecadar milhões de reais com a mineração. E a exploração e exportação de minérios servem para consolidar a posição internacional do Brasil como país neoextrativista, posição que nos coloca em extrema vulnerabilidade macroeconômica. Existem alternativas a essa maneira com que é feita a mineração aqui, que já estão sendo discutidas nos países do norte global há alguns anos (ver White Paper on responsible mining a título de exemplo). E nós aqui, estagnados como o celeiro do mundo, discutindo se a terra é plana (um salve pro guru do presidente). 


Não devemos nunca nos esquecer do caráter finito das reservas minerais e da importância delas em termos de soberania nacional. Foi pensando na proteção de nossos recursos que a “Coordenação Nacional dos Geólogos, que congregava dezoito associações profissionais e o Sindicato dos Geólogos do Estado de São Paulo (...) defenderam o usufruto exclusivo dos índios das riquezas do solo e do subsolo de suas terras e a nulidade de quaisquer direitos minerários já existentes sobre elas.” Isso é, na constituinte em 1987, os geólogos se aliaram aos indígenas para que a demarcação das reservas indígenas prevista na Constituição atendessem aos índios e também abarcassem áreas de reservas minerais, numa estratégia geopolítica de proteção dos recursos naturais. Proteção essa que estamos correndo riscos de perder, tendo em vista as declarações do atual presidente da república. Dados dessa pesquisa de março de 2020 mostram que os processos de exploração minerária em Terras Indígenas aumentaram 91% desde o início de 2019. Essa aumento repentino não condiz com a série histórica que apresentava uma redução desses números desde 2013. Isso põe em risco a floresta, os rios, os povos indígenas e todo o ecossistema ali presente. A que preço?


Também não devemos nos esquecer da nossa condição de animais habitantes do Planeta Terra. O que consumimos e o estilo de vida que levamos tem impacto direto no ambiente. Seja pelo plástico que vai demorar mais de 500 anos para se decompor, seja pelas ligas metálicas que não serão recicladas, combustíveis fósseis, água virtual, e por ai vai. Não, eu não estou dizendo que agora não pode mais nada, que devemos voltar para as cavernas e viver das coisas que a natureza dá (olha que essa ideia me agrada bastante). A ideia é procurar um caminho do meio. Se você come carne, procure saber se esse boi viveu em áreas desmatadas da amazônia, dê preferência a agricultura familiar e orgânica. Exerça o consumo consciente em todas as esferas. Pratique cuidado ativo e genuíno com a Terra.


Para além disso, existe a questão dos empregos. Boas intenções não pagam boletos e nem põe comida na mesa. Sei que todos precisamos de trabalhar e nos foi vendida a ideia da qualidade de vida e progressão de carreira dentro de grandes empresas. Mas cuidado com a bandeira que você levanta. “Dinheiro é bom e melhor ainda é se orgulhar de como tu conquistou ele.”  Vamos construir juntas esse lugar de luta e de fala. Vamos construir juntas uma geologia mais humana, voltada para os interesses sociais e ambientais.


Política é aquilo que a gente faz no dia a dia. Geologia também é política.


Abraços! Bárbara.


Texto originalmente publicado em https://bit.ly/3et6QZx


Bárbara também está no instagram e twitter como @taiobarbara e pode ser contactada pelo email ba.zambelli@gmail.com

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