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Crise climática global: uma perspectiva histórica e atual

Atualizado: Ago 24

A alegoria da caverna de Platão diz respeito a um grupo de pessoas que passaram a vida acorrentadas ao fundo de uma caverna e, por lá, miravam as sombras projetadas na parede pela luz de uma fogueira. A comunidade, descrita como os “seres sensíveis”, acreditava que aquelas sombras eram, de fato, a realidade. Certa vez, um indivíduo, tomado pela curiosidade, liberta-se das correntes e enxerga o mundo iluminado pelo Sol. Ele volta à caverna para contar aos seus colegas o que viu do lado de fora, mas o grupo desacredita e continua a mirar as falsas projeções na parede. Nessa narrativa, o homem desacorrentado, para Platão, representa o indivíduo capaz de enxergar o mundo — o ser “inteligível’ — aquele que foi capaz de distinguir o ilusório do real.


Podemos discutir inúmeros temas partindo dessa alegoria platônica. Neste artigo, trago luz ao debate sobre a crise climática global, que é discutida à exaustão por cientistas, ambientalistas e lideranças indígenas há décadas.


Sabemos que a crise climática é real.

Ciente de tal realidade, trago uma contextualização histórica sobre como e quando essa temática tomou proporções mundiais e como as lideranças políticas têm agido para mitigar os grandes problemas relativos a essa crise.


Enquanto a ciência segue em busca de constatações fiéis à realidade - ciência baseada em evidências (uma visão do “lado de fora da caverna”), um descrédito é exaustivamente repetido pelas grandes corporações interessadas na queima de combustíveis fósseis. De acordo com o jornalista e ambientalista britânico George Monbiot, líderes políticos, jornalistas e apresentadores de TV endossam sua lista pessoal dos chamados climate change deniers (ou, no português livre, negadores da crise climática). Segundo Monbiot, tais personagens foram os que mais contribuíram para inflamar a chama desse discurso. Na narrativa platônica, eles poderiam ser encaixados como os “seres sensíveis” — que, mesmo diante das explicações vindas de “fora da caverna”, continuam a acreditar no mundo das ilusões.


Em seu texto “Capitalismo e mudanças climáticas”, Edgar aponta que desde o século XIX já se previa o aquecimento do planeta. Por aqui, nossa jornada começa no século XX, especificamente na década de 60, quando o livro de uma ecologista inflamou o movimento ambientalista norte-americano.

A Primavera Silenciosa


Em 1962, Rachel Carson, bióloga marinha e ecologista norte-americana, publicou o livro intitulado Silent Spring, cujo enredo trouxe para o debate público os efeitos negativos que os humanos causam no meio natural. Carson, em sua obra, examinou os efeitos adversos do uso indiscriminado de pesticidas (como o DDT, por exemplo) no meio ambiente e nas pessoas. Alguns desses efeitos no ambiente são: bioacumulação, aumento da resistência aos pesticidas e enfraquecimento de ecossistemas em relação a espécies invasoras. Já nos seres humanos, o consumo desses produtos pode causar direta e indiretamente inúmeras doenças, incluindo o câncer e o aumento dos casos de malária.


Imagem de satélite da região entre os rios São Francisco e Verde Grande, próximo a Itacarambi no norte de Minas Gerais. Pode-se observar a intensa produção agrícola irrigada por pivôs. (Imagem Google Earth)


O primeiro grande encontro

Já no início dos anos 70, o aquecimento global e o agravamento do efeito estufa foram pautas discutidas pela primeira vez entre os líderes políticos na Conferência de Estocolmo sob a ótica da Organização das Nações Unidas (ONU). Vale ressaltar que a construção dessa organização foi vertical e realizada num contexto de pós-guerra por países de caráter beligerante. Ou seja, pouco ou nada se considera sobre o contexto dos países capitalistas periféricos nas tomadas de decisão.


Embora não se tenha definido um acordo entre os países participantes, foi criado nesse evento o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), cujo objetivo é a coordenação das ações internacionais de proteção ao meio ambiente e de promoção do desenvolvimento sustentável.


“A proteção e o melhoramento do meio ambiente humano é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente dos povos de todo o mundo e um dever de todos os governos.”


Depois do primeiro grande encontro em Estocolmo, vieram outras conferências ambientais como a Rio 92, Rio+10 e a Rio+20.

“Nosso Futuro Comum”


A Conferência de Estocolmo construiu importantes discussões sobre o uso indiscriminado dos agrotóxicos, mudanças climáticas, qualidade da água associada à qualidade de vida e, sobretudo, ao aquecimento global e agravamento do efeito estufa. O relatório intitulado “Nosso Futuro Comum” foi o marco das discussões ambientais.


Em 1983, a médica norueguesa Gro Harlem Brundtland traçou um panorama sobre a saúde pública que ultrapassou os limites da medicina. Brundtland, que é mestre em saúde pública e ex-primeira ministra da Noruega presidiu, a convite da ONU, a Comissão de Brundtland, que trouxe uma conceituação de desenvolvimento sustentável. Esse relatório mostra dados sobre o aquecimento global e deterioração da camada de ozônio - temáticas bem novas para a época - e, ainda por cima, estabeleceu medidas mundiais a serem seguidas para travar o desequilíbrio ambiental e climático.


Em 1988 foi criado um órgão científico-político denominado Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, um corpo científico das Nações Unidas que avalia danos relativos às mudanças climáticas e elabora relatórios com dados oficiais sobre o clima no planeta.


Floresta Amazônica próximo a Alter do Chão, no município de Santarém, Pará. Ao fundo, o rio Tapajós. (foto Bárbara Zambelli)


A Convenção das Partes e a “migalha” conquistada


Para que soluções referente às mudanças climáticas entrem em vigor é necessário que o legislativo de cada país esteja de acordo com a proposta. A partir daí, então, o poder executivo ratifica sua posição nas chamadas COP, ou Convenção das Partes - cujas propostas e medidas são discutidas todo ano, desde sua primeira edição em 1995, em Berlim. Mesmo com a apresentação de dados científicos que validam a realidade das mudanças climáticas, a Agenda 21 (proposta no contexto da conferência Rio 92), foi um dos poucos resultados obtidos naquele ano. Esse documento tem por objetivo apontar a direção para os países rumo ao “desenvolvimento sustentável”.


Um exemplo do contexto brasileiro é nossa relação com a Noruega, país com maior IDH do mundo em 2019. Vivemos um caso clássico “dois pesos, duas medidas”. Por um lado, a Noruega é a investidora máxima do Fundo Amazônia, com quase 94% do total de investimentos. Por outro, a empresa Hydro Alunorte (cujo governo norueguês detêm 34,3% das ações), é acusada de derramar rejeitos tóxicos da mineração de bauxita por meio de dutos clandestinos, sem qualquer tratamento prévio, no rio Pará, próximo a cidade de Barcarena. A mão que afaga é a mesma que apedreja.


O Protocolo de Quioto e a lógica mercantil


Em meio a um contexto de protocolos e convenções ambientais, o Protocolo de Quioto (PQ) é proposto em 1997. Ele sugere que países desenvolvidos reduzam em até 5,2% suas emissões dos gases que contribuem para intensificar o efeito estufa, dentre eles o dióxido de carbono (CO2) e o gás metano (CH4).

Dentro do PQ foram estabelecidos mecanismos de flexibilização, tais como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que abre a possibilidade de negociação no mercado internacional para cada tonelada de CO2 não emitida ou retirada da atmosfera. De acordo com esse mecanismo, caso o país signatário do PQ não reduza sua emissão, poderá comprar Certificados de Emissões Reduzidas (CER) de um país que emita menos gases do efeito estufa. Porém, tais certificados funcionam somente pelo viés mercadológico: é atrativo para as indústrias mais poluentes porque se apresentam como uma alternativa mais barata do que a redução efetiva do uso de combustíveis fósseis, e consequentemente, a redução da emissão dos gases intensificadores do efeito estufa.


COP 21: o Acordo de Paris


Ciente da urgência de uma solução que barre o aumento das emissões antrópicas dos gases que intensificam o efeito estufa, a COP21 reuniu 197 países em 2015 e elaborou um documento chamado Acordo de Paris. Neste documento, validou-se uma série de mecanismos de cooperação mundial. O ponto principal é que os Estados associados se comprometem para que o aumento da temperatura média global não ultrapasse os 1,5°C até 2100.


Segundo o IPCC, caso nada fosse feito e se continuássemos com os mesmos níveis de emissão, o aumento da temperatura média da Terra poderia chegar aos 4°C. Esse valor pode parecer “pequeno”, mas é catastrófico pois ele funciona como gatilho de vários processos de degradação ambiental. Dentre as inúmeras consequências, à medida em que a temperatura do planeta aumenta, diminui a capacidade dos oceanos em regular o clima global, enquanto aumenta seu processo de acidificação. Fenômenos naturais, como tempestades e secas, passarão a ter maior frequência e intensidade, aumentando a possibilidade de causarem perdas humanas, ecológicas e econômicas imensuráveis.


Paris, França (Foto Bárbara Zambelli)


A crise é real; ela existe e sua origem é antrópica. No entanto, conforme a Talita nos mostra aqui, ela não pode ser atribuída à espécie humana como um todo: inúmeros povos e comunidades não seguem a lógica do sistema econômico vigente - que preconiza uma lógica de exaustão dos ecossistemas e das pessoas. Além disso, os efeitos causados pelas alterações no clima são percebidos de maneira desigual pelo mundo.

Ou seja, os principais causadores das mudanças climáticas não são necessariamente quem mais sofre com seus efeitos.

Conforme discutido acima, há décadas a ciência vem mostrando um cenário de desequilíbrio ecológico relacionado às ações antrópicas: um desequilíbrio forte, capaz de deixar marcas no registro geológico a ponto de definir uma nova era. Negar todas essas mudanças nos coloca frente ao colapso ambiental e nos torna meros espectadores de um sistema econômico exploratório, que valoriza algumas vidas em detrimento de outras e descredibiliza as ciências sociais e ambientais como instrumento de transformação realidade.


Visto isso, é possível e necessário questionarmos sobre o que é o tão falado desenvolvimento sustentável, e se, de fato, esse conceito se sustenta em si mesmo. O desenvolvimento [econômico] sustentável é preconizado por uma conceituação hegemônica e eurocentrada. Em uma análise mais atenta desse conceito, ressalto os seguintes grifos: “o desenvolvimento sustentável é um processo de mudança no qual a exploração dos recursos, o direcionamento dos investimentos a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão em harmonia e reforçam o atual e futuro potencial para satisfazer as aspirações e necessidades humanas.” Um modo de produção e reprodução de acumulação de capital que visa extrair lucros, juros e rendas por meio da exploração de recursos naturais (que a geologia bem sabe que são finitos e não-renováveis), é insustentável por si só. A Bárbara discute esse sistema ético de exaustão do planeta em seu texto “o valor da geoética”. Desenvolvimento econômico não pode ser um imperativo sobre o desenvolvimento social, e não deve ser o fim em si, mas o meio para se atingir, de fato, uma sociedade mais sustentável.


Por fim, cabem as seguintes reflexões:

Quem explora os recursos? Nas mãos de quem esse lucro se acumula? Quem sofre com os efeitos negativos sobre o meio ambiente causados por essa exploração? Quem tem controle operacional sobre as carteiras e ativos financeiros (gerados por meio dessa extração)? Quem tem domínio sobre o desenvolvimento tecnológico e em quais áreas prioritárias ele tem sido empregado? O que as grandes corporações incutem no imaginário coletivo, por meio de publicidades, arquétipos e símbolos, como sendo necessidades humanas? É possível homogeneizar essas necessidades humanas? Um iPhone de última geração (programado para se tornar obsoleto) está no mesmo patamar de necessidade do que de populações que não têm o que comer?

[Nota da editora: Esse artigo expressa a opinião pessoal do autor. Essas opiniões não necessariamente refletem um posicionamento oficial d’a_Ponte]



Joana Morais é mineira de coração e cresceu vendo a Serra do Curral paralela à sua janela, em Belo Horizonte. Quando criança, acompanhava a família nas caminhadas ecológicas pela Serra do Cipó. Até hoje, quando pode, bebe das águas do cerrado mineiro e caminha pelas trilhas do Espinhaço. É graduanda em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e mãe orgulhosa de várias plantas e amostras de rocha e mineral.


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