• Bárbara Zambelli

Cristais energéticos

Como usar cristais para atrair boas energias? Onde encontrar cristais de cura?


Aposto que em algum momento você já se deparou com publicações na internet sobre o poder de cura dos cristais, sua aura energética, sobre como cuidar de seus cristais ou onde comprar cristais e pedras “energéticas”. Ou ainda tem alguma amiga, ou parente, ou vizinho, ou colega de trabalho que tem a casa repleta de belos cristais e, vez ou outra, coloca eles no sol para que “suas energias se renovem”. Bem, você não está sozinha...


Em qualquer perfil de rede social que promove conteúdo relacionado ao “bem-estar”, ou que se propõe a ajudar pessoas a relaxar, diminuir estresse, manifestar desejos, entre outras coisas, uma dica onipresente é o uso de pedras e cristais “energéticos” para melhorar essa performance.


Existem indicações para qualquer questão do corpo, da mente ou da alma. A lista de indicações da Bíblia dos Cristais, de Judy Hall, seria capaz de solucionar todos os problemas da humanidade. Parece muito tentador, e, obviamente, muita gente tem caído nesse conto do vigário.


Ilustração: Espiritualidade Mercantil


(parêntesis aqui para um leve parecer técnico:

  • cristal está relacionado ao formato que um mineral se apresenta - não tem nada a ver com o tipo de “pedra”, mas com sua forma.

  • minerais energéticos são aqueles utilizados para produção de energia [elétrica, no caso]. Alguns minerais energéticos são o carvão mineral e o minério de urânio. Nada de quartzo, ok?!

  • no universo da geologia - a ciência que estuda, além de outras coisas, as rochas e os minerais - não existe esse conceito de que “cristais são capazes de alterar o campo energético de pessoas ou ambientes”. A não ser, é claro, que esse cristal seja radioativo. Nesse caso, a influência dele nas pessoas seria um belo de um câncer.)


Uma das ideias mais propagadas no universo místico é cuidar do meio ambiente, mas paradoxalmente, com a explosão da tendência do pensamento novaerista, novas necessidades de consumo foram criadas (um alô pro capitalismo!). A indústria do bem estar é uma das que mais prosperam atualmente, e a pandemia da COVID acelerou ainda mais esse crescimento. Somente nos EUA esse mercado movimenta 10 bilhões de dólares por ano. Muitos desses produtos focados na promoção do “bem-estar” contribuem diretamente para a destruição do meio ambiente e para a espoliação dos territórios. O consumo de cristais “energéticos” é um exemplo claro disso. Segue o fio.


Acho importante voltar um pouquinho na história... Antes desses cristais estarem amplamente disponíveis na internet, eles tiveram que ser extraídos da natureza, seja da rocha, do solo ou do leito dos rios. Então, algumas questões surgem: De onde vem esses cristais “energéticos”? De que forma são extraídos? Quem faz essa extração e sob quais condições? Quais são os impactos sociais, ambientais e econômicos nos territórios onde ela é feita? Quem se beneficia de fato da exploração desse “recurso natural”?


Sobre a última pergunta, posso dizer que não é o novaerista iluminado e energizado que comprou seu cristal de quartzo na internet, ou em uma feira de pedras na Chapada dos Veadeiros. Quanto às outras questões, deixo aqui e aqui duas reportagens pra aguçar sua imaginação.


Feira de minerais em Nanning, China (Foto: Bárbara Zambelli, 2019).


O consumo desenfreado de mercadorias que prometem elevação espiritual ou “energias positivas” [como é o caso dos cristais] é prejudicial em vários aspectos.


A contradição entre a “good vibes” trazida pelo cristal e a destruição da natureza se expressa principalmente em sua cadeia produtiva/extrativista, reflexo do sistema econômico vigente (capitalismo) que vê a natureza de forma utilitarista, subordinada aos interesses humanos. O estilo de vida que prega o amor e a elevação da alma parece cegar os adeptos para essa questão.


Para além disso, precisamos refletir sobre o fenômeno por trás desse exponencial aumento de adeptos da indústria da cura, capazes de movimentar um mercado de bilhões. Qual buraco de asfalto estamos (paliativa e porcamente) tentando tapar com essas terapias? Qual a verdade que estamos tentando esconder de nós mesmos sustentando uma narrativa que promete mudança pessoal a partir da ritualização de um objeto?



Esse texto é uma co-criação da Espiritualidade Mercantil com a_Ponte.


Espiritualidade Mercantil é um perfil de uma ex-mística que critica como a nova espiritualidade tem conversado muito mais com o consumo de bens e serviços do que com a busca pelo autoconhecimento genuíno. Como a fé tem sido capitalizada para venda e lucro de poucos e como sua intensidade está mais relacionada com a quantidade de cursos, produtos e vivências do que o olhar para dentro. Acesse o perfil clicando aqui.



Bárbara é co-fundadora d’a_Ponte. Está nas redes sociais como @taiobarbara e pode ser contatada pelo email ba.zambelli@gmail.com


Para saber mais sobre a autora, acesse aqui.


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