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Eco – prefixo?


Parque Estadual de Terra Ronca, Goiás. (Foto: Bárbara Zambelli)


Prefixo é um elemento mórfico antecedente ao radical das palavras, gerando novos vocábulos e significados.


Eco tem origem no idioma grego, provém de oikos e quer dizer casa.


Como temos habitado nossa casa, quando a temos, durante a pandemia?


Em tempos de moradores solitários percebemos a diferença de uma dinâmica doméstica individual e coletiva. Imagine seu habitat, você consegue descrevê-lo? Quais as partes que mais gosta? Você o compartilha? Ele te ajuda a se realizar como pessoa? Ele te acolhe? Ele te conforta? O que você faz para mantê-lo e viver bem nele?


Aqui, abrangemos o conceito para casa no sentido comunitário e, portanto, significa: casa comum.


Parque Estadual de Terra Ronca, Goiás. (Foto: Bárbara Zambelli)


A ciência ocidental quando percebeu esse conceito se deu ao trabalho de tentar compreender esse ambiente. Para isso, criou duas importantes vertentes: a ecologia e a economia.


A Ecologia é o estudo da casa comum, o estudo das relações e interações dos seres vivos com seu ambiente. A Economia, por sua vez, é o gerenciamento desse lar. Para orientar a organização dos seres no espaço que habitam e estabelecer relações nos processos de produção, foram criados os sistemas econômicos.


Com o sistema majoritariamente vigente, o capitalismo, fazemos a gestão necessária considerando os limites de nossa casa?


A partir das referidas vertentes do conhecimento e dos acontecimentos sociais, dois novos conceitos e novas lutas surgiram no século XX: o ecofeminismo e o ecossocialismo.


O ecofeminismo é um pensamento-ação que critica toda forma de opressão e ressalta os meios de produção e reprodução da vida intrinsecamente relacionados à natureza e às mulheres. Bem como um reconhecimento da criatividade presente nesses seres e o potencial de libertação de todos os seres. Se trata de uma nova organização da comunidade humana baseada no respeito à diversidade.


O ecossocialismo propõe a otimização do emprego das forças de trabalho respeitando as condições dignas e as características humanas, tudo dentro do metabolismo da natureza. Portanto, apresenta uma maneira de produção e gestão submetida à regulação racional do metabolismo do organismo maior, que inclui a vida como um todo.


Parque Municipal da Lagoa Azul, Bahia. (Foto: Bárbara Zambelli)


O Brasil sediou um importante evento mundial que é considerado um marco na luta ambientalista: a Eco-92, ou Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Essa reunião de países colocou no centro do debate a casa comum, e como um dos documentos proveniente das discussões e articulações surgiu a Carta da Terra, que traz princípios para um novo começo.


Outro documento recente é a encíclica papal Laudato Si’, iniciativa importantíssima para o apelo ao cuidado da casa comum. Falando em cuidado, esta é uma pauta super relevante e imprescindível para a civilização sem o qual não haveria vida humana. Assunto tão crítico que é uma das bandeiras do movimento ecofeminista, devido ao fato de as mulheres serem as principais responsáveis pelo cuidado em várias esferas da vida social e invisibilizadas na essencialidade de suas práticas. Também é uma proposta de nova ética. O filósofo Leonardo Boff em seu livro Saber cuidar, Ética do humano – compaixão pela terra diz:


Sonhamos com um mundo ainda por vir, onde não vamos mais precisar de aparelhos eletrônicos com seres virtuais para superar nossa solidão e realizar nossa essência humana de cuidado e de gentileza. Sonhamos com uma sociedade mundializada, na grande casa comum, a Terra, onde os valores estruturantes se construirão ao redor do cuidado com as pessoas, sobretudo com os diferentes culturalmente, com os penalizados pela natureza ou pela história, cuidado com os espoliados e excluídos, as crianças, os velhos, os moribundos, o cuidado com as plantas, os animais, as paisagens queridas e especialmente o cuidado com a nossa grande e generosa Mãe, a Terra. Sonhamos com o cuidado assumido com o ethos fundamental do humano e como compaixão imprescindível para com todos os seres da criação.


Como mencionado, nossa casa comum é o planeta Terra!


E por meio dos saberes, dos diversos conhecimentos sobre ela, possibilitamos nossa estadia aqui. As ciências surgem a partir de curiosidades em busca de entendimentos, que, conseguidos, são assimilados, colocados em prática e realimentados.


Como as geociências, ciências que estudam o planeta Terra, nos auxiliam em tempos atuais?


Por que os saberes científicos estão descreditados?


Soltemos a palavra eco no ar: eco-ar.


Deixemos a reflexão de sons, e tudo mais, chegar ao outro o quanto antes em nosso lar.


Uma ecografia seria irmã da geografia? Qual a escrita do som e da Terra? Ou seria uma escrita de suas interações? Talvez uma das grafias mais belas dessas relações, baseando-se na ecologia, seja a literatura.


Quem sabe se ecopensarmos, ecossentirmos e ecoagirmos continuaremos, como espécie, a existirmos?


Criemos então novos significados.


[Nota da editora: Esse artigo expressa a opinião pessoal da autora. Essas opiniões não necessariamente refletem um posicionamento oficial d’a_Ponte]


Júlia Benfica é curiosa e criativa, talvez por isso caminhe entre ciências e artes. Nasceu em Belo Horizonte, morou em Brasília e hoje está em Piracicaba, e ainda transita entre esses locais, e muitos outros. É graduada em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília, mestre em Geografia pela Universidade de Minas Gerais e doutoranda em Ecologia Aplicada na Universidade de São Paulo. Busca a sinergia entre os seres e acredita no fazer coletivo como elaborador do bem comum.

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