• Bárbara Zambelli

Economia circular de metais

Atualizado: Abr 21

De acordo com um relatório da ONU, a população mundial de 7,6 bilhões de pessoas deverá atingir 8,6 bilhões em 2030 e 9,8 bilhões em 2050. Além disso, a porcentagem de habitantes em áreas urbanas está crescendo gradualmente. Nesse cenário, é possível afirmar que o crescimento da urbanização e adensamento populacional estão fortemente correlacionados ao consumo de metais e minerais. Espera-se que a alta demanda por metais se mantenha, seja nos países desenvolvidos, para acompanhar o avanço tecnológico, ou nos países em desenvolvimento, para sustentar a rápida industrialização e urbanização e alimentar o mercado internacional.

Mina de ferro em Itabira, MG (Foto: Bárbara Zambelli)


Minerais e metais estão presentes em praticamente tudo na nossa vida cotidiana. Eles são utilizados como matérias primas na indústria da construção civil (alguns exemplos são agregados para construção, cimento, ferro, aço, alumínio, cobre e ligas), implementos para a agricultura (tais como fósforo e calcário) e como componentes essenciais das tecnologias “verdes”, como painéis solares e energia eólica (lítio, cobalto, cádmio e elementos terras raras). O aumento do consumo que enfrentamos hoje requer uma quantidade de metais que não pode ser suprida pelos recursos naturais.

Nós já consumimos mais do que a natureza é capaz de repor e nossos recursos finitos estão se exaurindo.

Nesse contexto, a economia circular representa um modo de conceitualizar e operacionalizar a transição de modelos de negócios visando um modo mais sustentável do viver, fabricar e consumir dentro do modelo econômico atual.


O que é uma economia circular?

Em linhas gerais, ela pode ser entendida como um sistema cíclico e fechado.


O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente define a economia circular como o “equilíbrio entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental e de recursos, com o intuito de manejar os resíduos, retornar os nutrientes e reciclar os duráveis, utilizando-se da energia renovável para empoderar a economia”.


Um artigo bem interessante discute sobre os conceitos e aplicações da economia circular no contexto global, bem como suas tensões e limitações. Os autores propõem a redefinição da economia circular como “um modelo econômico em que planejamento, recursos, compras, produção e reprocessamento são projetados e administrados, ambos em processo e resultado, de modo a maximizar o funcionamento do ecossistema e do bem estar humano.”


Dessa forma, a economia circular se opõe ao modelo clássico de economia linear, no qual os recursos naturais são transformados em resíduos por meio da produção. Na economia linear assume-se um fornecimento ilimitado de recursos naturais e capacidade ilimitada do meio ambiente em absorver os resíduos. Por outro lado, a economia circular é concebida para que não tenha efeito líquido no ambiente, além de garantir baixa formação de resíduos durante o processo de produção. A economia circular se baseia na ideia da reciclagem dos produtos, usando resíduos como recursos e ajudando a enfrentar padrões insustentáveis de produção e consumo.


O Brasil recicla mais de 98% das latinhas de alumínio em circulação, sendo líder mundial nesse quesito (Foto: Bárbara Zambelli)


A China é a pioneira em implementar e desenvolver estratégias de economia circular a nível nacional. Com quase 1,4 bilhões de pessoas (cerca de 19% da população mundial), é de interesse global que a China adote práticas econômicas e políticas que sejam sustentáveis. Além dela, outras partes do mundo estão adotando os conceitos da economia circular para manter os recursos minerais em uso pelo maior tempo possível e, dessa forma, expandir a durabilidade de suas reservas de matérias primas. Trazendo alguns exemplos, vale citar a iniciativa britânica “Ellen MacArthur Foundation”, fundada em 2010. Em 2014, a Comissão Europeia lançou seu próprio programa nomeado “Towards a Circular Economy: a zero waste programme for Europe” (em tradução livre: Rumo à economia circular: um programa de resíduo zero para a Europa). No Brasil também há projetos como esse, para promover a economia circular, desenvolvido dentro da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


Como dito, a economia circular parece resolver nossos problemas em relação ao fornecimento de matérias primas e metais. Porém, é crucial levarmos em conta cada metal e seus respectivos ciclos no sistema para entendermos os impactos ambientais associados a cada fase de utilização – desde a extração da matéria-prima até o fim de sua vida útil. Outra característica importante é que a economia circular apoia-se na (geo)metalurgia, tecnologia e compreensão do design do produto (sua mineralogia). A recuperação de cada metal depende da combinação dos três fatores. Além disso, já existem empresas reciclando átomos para alguns metais, embora esses processos tenham um alto consumo energético e busquem unicamente a recuperação individual do metal.


Apesar de parecer prática a ideia de produtos duráveis, a longevidade não é sempre ecologicamente eficiente. A questão do fluxo deve ser central e procrastinar o ciclo dos metais por meio de químicas exóticas pode não ser uma estratégia apropriada.


Finalmente, apesar de a economia circular apresentar um potencial incrível para redução da necessidade de exploração de matéria-prima, parar a mineração é praticamente impossível dentro panorama econômico atual. Em seu texto sobre ‘Quem são os responsáveis pelas mudanças climáticas’, Talita Gantus discute como ecossocialismo pode ser uma alternativa ao capitalismo, propondo uma revisão dos modos de produção e consumo. Enquanto isso, caso a economia circular não seja aplicável, deve-se zelar pela mineração responsável.


Texto originalmente publicado em https://blogs.egu.eu/network/gfgd/2018/04/24/circular-economy-of-metals-and-responsible-mining/, em 24 de abril de 2018.


Traduzido por Joana Morais. Revisado e editado por Bárbara Zambelli.


Bárbara está no twitter e instagram como @taiobarbara e pode ser contactada pelo email ba.zambelli@gmail.com


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