• Talita Gantus

Feminismo interseccional: um olhar a partir das geociências

O feminismo é uma urgência no mundo. Mas é preciso afirmar que nem todo feminismo liberta e emancipa. Nas palavras de Talíria Petrone, no prefácio do livro Feminismo para os 99% - um manifesto, “não é possível que nosso feminismo deixe corpos pelo caminho. Não há liberdade possível se a maioria das mulheres não couber nela.”


Para que esse debate se enquadre nas premissas das geociências, construo este texto baseado em 4 eixos que abarque nossos campos de conhecimento: (1) mineração; (2) geografia agrária; (3) espaço urbano; (4) desastres “naturais” e provocados pelo homem (e não me escapa aqui o sujeito ‘homem’, por ser importante destacar que a maioria dos empreendimentos que ali se enquadram são planejados por eles).


No caso de regiões onde a mineração se impõe sob o discurso de desenvolvimento e progresso, nota-se o aumento da precarização da vida, da vulnerabilidade das pessoas de classes sociais desfavorecidas economicamente e da violência. A Plataforma Brasileira DHESCA (Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais) apresentou o relatório Mineração e violações de direitos relativos a tal operação, pontuando como efeito: migração desordenada, agravamento nas condições de vida e nas desigualdades de gênero, precarização dos serviços públicos e vulnerabilidade à exploração sexual e outras formas de violência.


Segundo a Sempreviva Organização Feminista (SOF), nas áreas de exploração mineral é recorrente a violência doméstica contra as mulheres, a violência sexual e a prostituição. Pelos dados do Mapa da Violência, o norte do Brasil apareceu com 182 homicídios de mulheres em 2013, dado mais recente disponível. Eles apontam que a população negra é vítima prioritária, e que, enquanto as taxas de homicídio da população branca tendem a cair, as taxas de mortalidade da população negra aumentam. Nessa região, o comportamento na relação étnica foi de 76 mulheres brancas para 376 mulheres negras vitimadas em 2013. Esse artigo traz análises sobre o aumento da violência de gênero no sudeste do Pará, onde está situada a maior província mineral do mundo: Província de Carajás, explorada pela empresa Vale desde os anos 80.


Em relação à questão agrária, vários fatores contribuem para o aumento da violência de gênero nas áreas rurais - além do isolamento político-geográfico que as nega acesso a políticas públicas. A consciência ecológica “feminina” nasce das divisões de trabalho e papéis sociais estabelecidos historicamente. Por exemplo, quando as mulheres assumem as tarefas de busca de lenha e água, o cuidado da horta e da lavoura - as duas últimas, inclusive, estabelecem uma relação intrínseca com o consumo de carne e o patriarcado (ideia amplamente discutida no livro A política sexual da carne, de Carol J. Adams, também brevemente abordada nesse podcast). Além disso, são elas as responsáveis pelo trabalho doméstico de limpeza e cuidados pessoais que fazem uso da água, os quais se estendem para além do contexto rural.


Temos, hoje, uma combinação totalitária entre o agronegócio e o hidronegócio (este último envolve temas como hidrelétricas, abastecimento, saneamento e apropriação de fontes de água). Os produtos gerados são conflitos relacionados à deficiência no balanço hídrico em áreas rurais, contaminação e insegurança hídrica, o que coloca as mulheres, responsáveis pela gestão da água, como as mais impactadas. Nesse sentido, as mulheres camponesas, indígenas, quilombolas e ribeirinhas são as mais atingidas pelo agronegócio. Nesse importante texto, Bárbara estabelece mais profundamente as relações entre a falta de acesso à água potável e o papel de gênero.


Manifestação popular em Bento Rodrigues, Minas Gerais, em prol das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Mariana. (Foto: Pedro Lima Salomão)


Sobre a questão urbana, é possível afirmar que existe uma divisão sexual do espaço, tema sobre o qual discorro nesse texto. Para além disso, o processo de segregação sócio-espacial capitalista tem cor, levando as populações negras à periferização e à favelização nas cidades. Dados de 2014 do IBGE apontam que 76% dos mais pobres no Brasil são negros. Segundo o IPEA, 43% das famílias em áreas urbanas são chefiadas por mulheres. E 63% das casas comandadas por mulheres negras estão abaixo da linha da pobreza. Portanto, é impossível falar sobre direito à cidade, urbanismo, planejamento urbano e ‘cidades inteligentes’ (leia aqui a crítica sobre esse conceito) sem levar em consideração esses recortes. O projeto Cidade Utopia: aliada na vida das mulheres aponta a transformação das cidades a partir de uma perspectiva feminista libertadora. Uma responsabilidade coletiva que precisa ser compartilhada entre todas camadas da sociedade.


Em relação aos desastres, causados por fenômenos naturais (como inundações, movimentos de massa e secas) e pela ação do homem (como rompimentos de barragens de rejeito e de captação de água), eles respondem a 73% das migrações forçadas no Brasil. Segundo o Observatório de Migrações Forçadas, desde 2000, esses desastres provocaram o deslocamento de 6.425.182 pessoas (número equivalente à população do Rio de Janeiro, a segunda cidade mais populosa do país).


Um estudo, desenvolvido numa parceria entre IBGE e Cemaden, apontou que cerca de 51% dos indivíduos expostos ao risco [de inundações e deslizamentos], nos 825 municípios analisados, eram mulheres. Entre os chefes de família analfabetos nessas áreas, 52% eram mulheres. Segundo a ONU, mulheres e meninas têm mais probabilidade de morrer em tragédias causadas por fenômenos naturais; elas representaram 77% dos mortos no tsunami no Oceano Índico, em 2004. Em relação aos desastres-crime de Mariana e Brumadinho, ocasionados pelo rompimento de barragens de rejeito sob responsabilidade da Vale, observa-se uma distribuição desigual dos impactos prejudiciais, que recaem, de maneira mais ostensiva, sobre grupos historicamente vulneráveis, como as populações indígenas, negras e as mulheres.


Todavia, esse artigo aponta que a vulnerabilidade aos desastres é socialmente construída. Atrela-se, portanto, a padrões socioeconômicos, culturais, de acesso à informação, de segurança e pela forma de discriminação de gênero que é vivida em cada sociedade. Partindo da construção social por trás do papel de gênero - desmistificado brilhantemente por Simone de Beauvoir, em O Segundo sexo -, exclui-se a relação entre vulnerabilidade e condicionantes biológicos.


Aqui, trago luz sobre a seguinte questão: quais são os processos históricos e sociais por trás das condições materiais que levam as mulheres a ocuparem posições de maior vulnerabilidade [no que tange os cenários aqui colocados]?

Precisamos fortalecer um feminismo em que as diversidades sexuais e raciais são assumidas em toda a sua carga colonial, de classe e de relação com a Natureza. Uma mudança estrutural não representa uma alternância de poder. O movimento interseccional de mulheres que lutam contra o feminismo liberal denuncia artimanhas de grandes empresas capitalistas, como as grandes mineradoras, que, sob a luz do discurso de promoção da equidade de gênero, buscam colocar mulheres em posições de poder, perpetuando a opressão imposta à classe de mulheres trabalhadoras. Esse movimento expõe que o dispositivo extrativista de desenvolvimento não é apenas economicista e degradante para a Natureza, como também é profundamente racista, patriarcal, classista e imperialista.


A expropriação racializada se entrelaça a um aumento da exploração estimulado pela transferência de grande parte da produção para o Sul global - de mão de obra espoliada, de matéria prima proveniente da mineração, de produtos agrícolas do agronegócio, de água virtual contida em grandes bacias de captação (as quais contribuem para a insegurança hídrica de populações), e de todas as externalidades negativas contidas nesses processos, como os danos ambientais associados. Como resultado, constroem-se no Sul-global cidades e sociedades profundamente desiguais. Precisamos descolonizar o imaginário e construir caminhos de reconhecimento, diálogo e construção coletiva de transformação. E isso só poderá ser feito por meio de um feminismo interseccional.


Talita está no instagram como @gantustalita e pode ser contactada pelo email tgantus@gmail.com

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