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Florestacidade

Atualizado: Jul 15

Peço licença para chegar!


O convite para ocupar esse espaço me soou animador, do tipo anseio.

Venho compartilhar minha experiência de dissertação e espero encontrar leitoras e leitores para essas palavras.


Encontrei na geografia a beleza do conflito sutil e incômodo de ser complexa e pragmática, de tentar separar físico e humano, e se permitir misturar. De modelar futuros e conhecer partículas de solo, ao mesmo tempo que se discute o lugar e a paisagem, o ser e o estar.

E meu maior alento, o mestre Milton dizendo que não se deveria separar geografia e poesia.

Gosto muito da imagem de uma ciência que estuda a grafia da Terra, o desenho na superfície, a escrita dos seres, as interações dos inanimados, a descrição da vida. Talvez seja uma função de poetas. MANIFESTO DA POESIA AROEIRA

D’aprés Oswald de Andrade¹

A poesia existe nos fatos.

Os feriados religiosos dançam na cara do capital, por meio do capital, em plena capital. Os negros permeiam, os brancos ignoram. A formação étnica rica. Limites traçados não se darão no real, se a força, à força, os empurrarem. É na deglutição do externo que se cuspirá o indigesto e nascerá o certo. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. Comida pesada que alivia o espírito. Feijão, queijo e angu. Donos de terra, filhos da terra. Doutor, roceiro e capião. O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho. A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Economia, ciências políticas, arquitetura, ecologia, biologia. Vida pulsando lá fora, pedindo para ficar aqui dentro. Alegria dos que não sabem e descobrem. Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: ocupação do que é visto vazio, usurpação da terra propriedade, intrometimento na casa de todos. A poesia Aroeira, ágil e cândida. Como uma criança. Ignoras a resistência negra, a existência. Exploras anseios por vidas dignas. Bates no chão que te sustenta. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino. Há luta em terra de minorias, maiorias em números. Uma única luta – a luta pelo caminho. Instituíra-se o naturalismo. Natural seguir de cabeça baixa, entregar a cidade, desvincular-se do meio. Chegou carro, computador e luz elétrica, mas o respeito por hora se atrasou. Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos. A síntese O equilíbrio A ocupação invasiva, o rasgo no mapa. O direito negado. A ambição em roupagem sustentável. A violência A surpresa Uma nova perspectiva Uma nova escala Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Aroeira Dizer não à supressão da vegetação, ao secamento dos rios, ao silenciamento dos animais. Permitir a floresta, interagir com o que resta. Uma nova perspectiva. Ora, o momento é de reação à aparência. Moderno é reconhecer que a autossuficiência humana modificadora do entorno está fadada ao fracasso se não aliada à coletividade dos ciclos ecológicos. No jornal anda todo o presente. Presente para a ganância voraz que manipula multidões a seu bel-prazer. Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. Pluralidades abafadas pela mídia, realidade maquiada e opiniões com tom de certeza. Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá” e de equações. Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época. Ruralidade desprezada, crenças substituídas, submissão. A ignorância consentida vinda das bancas de jornais, da televisão e das redes sociais. O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica. Brigas de saberes. Pobres, ricos, leigos e cultos. A reação contra todas as indigestões de sabedoria. Apenas cidadãos desgovernados. Governados na direção oposta ao povo. Tudo digerido. Sem ao menos pôr no prato, sem saborear. Cidade que cresce pra tudo que é lado. Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Aroeira. A floresta e a escola. A casa, o alimento e o lazer. A vegetação. Aroeira.


¹ Poema escrito a partir, e com versos do mesmo marcados em itálico, do Manifesto da Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade, publicado em 1924. Feito para a dissertação e presente nela.


Bem, nesse bojo quis discutir floresta e cidade, floresta na cidade, ou seria cidade na floresta?


O singular é plural.


Essa é a máxima das canções de amor.


Se você mora na cidade, aposto que tem alguma área verde ameaçada de extinção.

Foto tirada no interior da Mata da Izidora, Belo Horizonte, MG, em 2017.

(Foto: Júlia Benfica)


Decidi estudar uma mata que tinha acabado de conhecer, e que muita gente não conhece. Mata da Izidora, zona norte de Belo Horizonte – MG. Ela tem resistência no DNA. Tem nome de mulher, que virou masculino sem mais nem porquê, mulher sabe o que é resistir.

As pessoas entrevistadas foram vistas, metodologicamente, como sujeitos sociais, é dizer que são indivíduos e coletivos, e vice-versa.


Com isso, cabe a reflexão, meu querer de floresta coexistindo com a cidade será individual e coletivo?


É interessante pensar que uma floresta é um coletivo, ela é composta de solo, água, animais, plantas, ar, cheiros e pessoas!


A diversidade da área escolhida faz parte de sua beleza, ela comporta tudo isso, ela comporta história, cultura.


Como vamos proteger a floresta se não a conhecemos? Se não convivemos com ela? Se ela está longe? Se ela está desaparecendo? Como vamos nos proteger com a floresta?


E como ocupar locais de discussão sobre o assunto? Lançando o corpo no mundo ou pela lei natural dos encontros?


Muitas vezes batendo nas portas, ligando, enviando e-mails, trocando ideias... Colocando-se à disposição.


Assim apresentei a pesquisa e a proposta de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável para a área em entrevistas escritas e na rádio, em reuniões, na prefeitura, eventos científicos e projeto de ONG.


Lançar a palavra é como lançar semente, existem muitos fatores para fazer germinar.

Sussurro um segredo,

horta

árvore

água


Deixo a reflexão de meu título.


Epitáfio: a floresta se despede da cidade?


Foto aérea da Mata da Izidora, Belo Horizonte, MG, em 2017. (Foto: Google Earth)



[Nota da editora: Esse artigo expressa a opinião pessoal da autora. Essas opiniões não necessariamente refletem um posicionamento oficial d’a_Ponte]





Júlia Benfica é curiosa e criativa, talvez por isso caminhe entre ciências e artes. Nasceu em Belo Horizonte, morou em Brasília e hoje está em Piracicaba, e ainda transita entre esses locais, e muitos outros. É graduada em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília, mestre em Geografia pela Universidade de Minas Gerais e doutoranda em Ecologia Aplicada na Universidade de São Paulo. Busca a sinergia entre os seres e acredita no fazer coletivo como elaborador do bem comum.

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