• Talita Gantus

Geoturismo como ferramenta de conscientização, preservação e resgate histórico-cultural

Atualizado: Mai 19

A Serra da Mantiqueira é uma cadeia de montanhas que se estende pelos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Todavia, não é possível falar do surgimento da Serra da Mantiqueira sem mencionar a Serra do Mar e outros sistemas geológicos.


Vista geral da Serra da Mantiqueira, visada do cume do Pico dos Marins.

(Foto: Tiago D. Martins/UNIFESP)


Há cerca de 120 milhões de anos, a placa tectônica continental que iria constituir a América do Sul (Placa Sul-americana), até então parte do supercontinente Gondwana, começou a se separar da Placa Africana - num processo conhecido como deriva continental. A região onde houve a separação tornou-se, então, palco de grandes movimentações de blocos rochosos da crosta, originando vales profundos, derrames vulcânicos, compressões e fraturas, que se refletem em estruturas observadas na paisagem. Os mares antigos invadiram as áreas mais baixas recém formadas, inicialmente criando extensos canais e braços de mar, para mais tarde se unirem numa única grande massa de água: o Oceano Atlântico.


Tectônica de placas na América Latina. (Fonte: A Geologia do Brasil no Contexto da Plataforma Sul-Americana, Schobbenhaus e Brito Neves, 2013)


A Placa Sul-americana, deslocando-se para oeste, chocou-se com outra placa tectônica, a de Nazca, situada no fundo do Oceano Pacífico e que se movia em sentido contrário, para leste. Essa dinâmica originou a formação da cadeia andina ao longo de toda a costa pacífica no hemisfério sul, e causou um levantamento da costa atlântica, onde se situa o litoral brasileiro.


Parte da Cordilheira dos Andes, na região norte da Argentina. (Foto: Talita Gantus)


Esse movimento de ascensão da costa brasileira começou a expor rochas muito antigas, até então soterradas por outras mais recentes e por sedimentos inconsolidados. [Lembre-se que a Terra tem cerca de 4,56 bilhões de anos e vários processos similares aconteceram ciclicamente ao longo da história geológica.] Nas regiões sudeste e sul afloraram rochas de idade pré-cambriana, superior a 600 milhões de anos, dando início ao soerguimento daquilo que viria a ser o sistema Serra do Mar-Mantiqueira.


Mapa topográfico que mostra o contraste no relevo. A faixa avermelhada que, na foto, passa por Campos de Jordão, SP, e se estende até Passa Quatro, MG, representa a Serra da Mantiqueira. A faixa avermelhada próxima ao litoral representa a Serra do Mar.


Exposta à intensa erosão e em contínuo processo de soerguimento, essas rochas, muito rígidas, foram trabalhadas durante os milhões de anos seguintes. E assim acredita-se que se formaram as serras costeiras brasileiras, a partir de movimentos tectônicos e, consequentemente, vulcânicos. Somado a isso, os intensos processos intempéricos e erosivos (chuvas, ventos, geadas, desmoronamentos), ao longo de milhares e milhares de anos, moldaram o relevo, conformando a paisagem como é observada atualmente.


O nome ‘Mantiqueira’ vem do tupi-guarani ‘Amana Tykyra’, que significa “gota de chuva”, devido à grande quantidade de nascentes que a região abrange. Por esse mesmo motivo, ela é conhecida também como a “Serra que Chora”. Segundo relatório da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA), de 2007, a Serra da Mantiqueira é considerada uma das grandes reservas de água do planeta, tanto em sua qualidade como em quantidade disponível para uso.


A região representa uma fonte hídrica importantíssima para o abastecimento de várias cidades do estado de São Paulo (inclusive do Sistema Cantareira, que alimenta, diariamente, cerca de 10 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo), do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Por outro lado, algumas ações, ocasionadas por falta de informação por parte dos visitantes em seus campos de altitude, fazem com que as fontes hídricas sejam colocadas em risco. No Pico dos Marins, com acesso pela cidade de Piquete, SP, bem como no Pico do Itaguaré, com acesso pela cidade de Passa Quatro, MG, os únicos pontos de água potável são as pequenas nascentes próximas aos cumes, que estão contaminadas com fezes e urina humana. Isso faz com que os visitantes tenham que carregar sua água e, caso não seja suficiente, somente com horas de descida pela trilha encontrarão outra fonte.


Maciço dos Marins, visto do Morro do Careca. (Foto: Tiago D. Martins/UNIFESP)


Pico do Itaguaré visto do cume do Marins. Ao fundo, a Serra Fina.

(Foto: Tiago D. Martins/UNIFESP)


Observamos, então, um grande paradoxo: ao mesmo tempo em que estamos vivenciando uma aventura no ambiente natural, não estamos vivenciando-no de uma forma sustentável - e aqui ressalto a vivência no ambiente, e não do ambiente, numa tentativa de despertarmos para a superação da dicotomia humano x natureza, já que somos uma espécie animal compreendida na natureza: ou seja, somos, também, natureza.


O quão estranho te parece subir os 2.407 metros de altitude do Pico dos Marins, e os 2.308 do Pico do Itaguaré, alcançar o cume onde se encontram nascentes de água doce, mas ter que consumir água mineral engarrafada em plásticos - vendida a cerca de 4 reais/litro e que gera resíduos que demoram mais de 400 anos para se decompor?!


A percepção humana é considerada um pré-requisito básico para o alcance de diferentes níveis de conscientização. O conhecimento popular e o científico tornam-se, portanto, importantes aliados para que se promova uma efetiva conservação da natureza. O turismo, como atividade consciente, é um meio usado pelos visitantes de áreas protegidas que permite a percepção ambiental e, consequentemente, a interpretação e a preservação dessas áreas.


A proteção da fauna e flora, os efeitos da poluição, a qualidade dos locais visitados, têm-se tornado premissas para que o fomento ao geoturismo seja um importante aliado à preservação ambiental. Com isso, torna-se possível o desenvolvimento econômico local - por meio do incentivo ao turismo de base comunitária - a vivência e a visibilidade de culturas e modos de bem viver até então relegados pela nossa história cultural hegemônica. E isso se revela, por exemplo, pela dificuldade encontrada, na construção do presente texto, em localizar informações sobre as comunidades tradicionais e indígenas que ainda vivem nessas regiões. Onde está o resgate histórico-cultural das nossas raízes? Onde está o banco de dados dos povos que ali viveram e que deram nome à Amana Tykyra? Como entramos em contato com a cosmovisão desses povos, na perspectiva deles?


O quão interessante poderia ser se, antes de iniciar a caminhada rumo ao cume, os turistas tivessem acesso ao tipo de conhecimento narrado no início deste texto, em que ele entre em contato com a história geológica do local, para que o percurso e a paisagem vista lá de cima tenham outros significados. Para que ele se desperte para o fato de que os ciclos terrestres acontecem numa dinâmica de tempo que é geológico, e não histórico. Isso significa que a contaminação das nascentes, o despejo de toneladas de resíduos que produzimos desnecessariamente, passarão por um processo de recuperação lento, e que impactarão a fauna, a flora e as comunidades locais.


A atividade turística pode ser vista não só como dinamizadora da economia local, mas como elemento estruturante de uma ordem cultural e ambientalmente responsável, abrindo caminho para as reflexões sobre a sustentabilidade e sobre as simbologias culturais e nossa ancestralidade. Todavia, para que isso seja possível, é necessário existir incentivo por parte do poder público.

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