• Talita Gantus

Luta feminista e ciência crítica: dois lados da mesma moeda


Campo do Projeto de Extensão GeoPrevenção, realizado pelo GEGEO/UFPR, em 2018. (Foto: Talita Gantus / Arte gráfica: Bárbara Zambelli)


Eu tinha recém me formado geóloga, era início de 2016. Foi quando assumi um trabalho freelancer em que eu precisava fazer um mapeamento geológico/geotécnico de uns bairros de Ouro Preto, MG, além de aplicar questionários aos moradores para levantamento da percepção de riscos [a deslizamentos de terra] aos quais eles estavam suscetíveis em suas casas. Era uma Ouro Preto bem diferente da qual eu estava acostumada, aquela promovida pela vida universitária. Eu já havia tido contato com alguns daqueles bairros (de alta vulnerabilidade socioeconômica) durante um projeto de extensão da graduação, em parceria com a Defesa Civil. Mas, ali, era só eu, minha pilha de questionários, minha prancheta, muita inexperiência e bastante vergonha.


Vi e ouvi muita coisa, encontrei com algumas pessoas que só queriam desabafar, mas a fala de uma senhora ficou marcada na minha cabeça: “esse povo da universidade volta aqui todo ano, faz um monte de pergunta e depois desaparece. Eu não quero saber se a encosta vai cair, que a gente nem sabe quando vai ser [havia 4 anos do último desastre na região, no verão de 2012]. Eu não tenho outro lugar pra ir, eu preciso de coisas mais urgentes. Eu quero luz no poste porque a rua escura fica perigosa, eu quero uma quadra pras crianças, eu quero um postinho de saúde mais perto pra eu não ter que andar tanto, eu quero água na torneira pra eu fazer comida [a falta d’água é muito comum em Ouro Preto] e uma rua calçada porque aqui faz muita sujeira quando chove” [a rua, última do bairro, não tinha pavimentação].


No final eu não sabia muito o que dizer, suspendi o questionário, e, entre lágrimas (sou do tipo emocionada), pedi um abraço.


A interpelação me deslocou/desloca e me provocou/provoca questionamentos sobre esses saberes que narram uma vida ocultada das páginas dos livros, com a qual não tive contato enquanto sentada nos bancos da faculdade. De que valia aquele questionário cartesiano, reproduzindo uma ciência positivista, que em nada dialogava com necessidades reais e urgentes da vida daquela sujeita de pesquisa [e também produtora de conhecimento]?


Esse foi meu segundo momento desconfortável de questionamento sobre a produção social do conhecimento nas universidades. O primeiro tinha sido durante um evento realizado no auditório do Departamento de Geologia, na UFOP, alguns meses depois do desastre da Vale/Samarco/BHP Billiton na região. E eu digo “momento desconfortável de questionamento” porque questionar se implicando como agente social causa um certo constrangimento: a mentira em que me acomodei acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. Experimente!


Qual é o papel social da dita “elite acadêmica/intelectual” que, como disse Suely Messeder, “com seus textos escritos em inglês, com seus artigos publicados em qualis A, [cada vez] mais se distanciam desses saberes [tradicionais]"?.


“A comunidade epistêmica, situada em instâncias de poderes, cria cinturões entre eles/elas e privilegia suas linhagens, não considerando outros territórios como produtores de conhecimento. (...) Cria-se, assim, um abismo para se construir uma política de coalizão tão necessária para romper com a colonialidade. Criamos castas, nas quais alocamos os grupos de pesquisas e os/as pesquisadores/as mais autorizados/as para produzir conhecimento.”


Cinco anos depois e muitos encontros e achados nesse ínterim, já me é possível “descascar a cebola” e analisar as distintas camadas dessa realidade. A senhora, uma mulher racializada, em situação de vulnerabilidade econômica, reclama por iluminação pública, para uma maior sensação de segurança que não a militarizada. Ruas escuras são cenários mais suscetíveis a ocorrências de abusos sexuais relacionados à violência de gênero. Ela reclama também por saúde pública, saneamento básico e limpeza urbana; elementos que se entrelaçam. Segundo o Sistema Único de Saúde (SUS), mais de 111 mil mortes entre 2008 e 2017 foram causadas por doenças relacionadas à água contaminada ou deficiência no manejo de esgotos.


Nota-se, também, que as atividades/necessidades dessa senhora envolviam demandas relacionadas às questões de gênero e à esfera doméstica - e, na verdade, ambas se atravessam (leia aqui o artigo ‘O que é a teoria da reprodução social’, de Tithi Bhattacharya). Cuidados de saúde, de higiene, limpeza e alimentação (que demandam água), insegurança no espaço público pela condição de vulnerabilidade [de gênero] socialmente construída, preocupação com as crianças (e manutenção das redes de afeto), tudo isso são demandas levantadas por mulheres.


Vários elementos ainda se somam a essa análise territorial. As mulheres não experienciam a vida da mesma forma e nem são pautadas por condições materiais semelhantes. A segregação socioespacial - tema amplamente trabalhado por geógrafos/as como Milton Santos e Arlete Rodrigues - condiciona o acesso a equipamentos urbanos pelo código postal, uma característica do apartheid social racializado das nossas cidades. Para além disso, temos, no exemplo aqui narrado, um panorama da realidade de muitos dos bairros que convivem com riscos a desastres socionaturais - que, ali, era o deslizamento de terra, mas em ‘Quarto de despejo’, de Carolina Maria de Jesus, era a inundação e a falta d’água [água demais versus água de menos].


Todavia, como disse bell hooks em ‘Erguer a voz’: “pensar sobre a questão de gênero ou lamentar a condição da mulher não é necessariamente expressão da consciência feminista.”


Isso me desafia a refletir, enquanto mulher branca cientista e militante, como posso me mover constantemente pra quebrar o elitismo teórico. Como posso me engajar na reflexão crítica para ajudar a construir uma teoria feminista libertadora? E mais: como podemos usar nosso conhecimento científico, ancorado no conhecimento da outra e sem o estabelecimento de relações hierárquicas pautadas pela educação formal, para ajudar uma irmã? Como derrubar estruturas que lucram com a produção racializada e feminizada da pobreza? Como costurar redes para que esses conhecimentos possam ser intercambiados, cada qual contribuindo à sua maneira e de acordo com suas próprias condições?


Ainda citando bell hooks, “a educação [e a ciência] não é um processo neutro. O conhecimento vem sendo usado a serviço da manutenção da supremacia branca e de outras formas de dominação”. Nesse sentido, só há uma saída possível: aprender sobre as estruturas de dominação [que, inclusive, impede a libertação do próprio opressor - como disse Paulo Freire] e como elas funcionam é o que nos permite imaginar novas estratégias para a mudança e a transformação.


Desafiar o status quo não é politicamente neutro. A ciência não é politicamente neutra, porque é [socialmente] construída a partir de subjetividades. Esse texto, publicado no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, 11 de fevereiro, é, na verdade, um convite às mulheres cientistas à reflexão e ao diálogo. Tendo em vista que a disputa se faz concreta e simbolicamente, nossa ciência sustenta o discurso e preenche as lacunas do/a oprimido/a ou do/a opressor/a?


Se suas condições materiais/psíquicas te impedem de colaborar mais efetivamente, cogite apoiar, dar visibilidade, espaço e voz às mulheres - acadêmicas e não acadêmicas - que estão comprometidas com a construção de epistemologias, narrativas, comunicação científica e de militâncias verdadeiramente feministas.




Talita pode ser contatada pelo email tgantus@gmail.com, está nas redes sociais como @gantustalita e publica textos pessoais em www.talitagantus.info

Sobre a autora acesse aqui.

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