• Talita Gantus

Mineração: trabalho de Sísifo?

Sísifo, na mitologia grega, é conhecido como o mestre da malícia e da felicidade, e entrou para a tradição como um dos maiores ofensores dos deuses. Ao obter sucesso em suas investidas de enganar Zeus, Ades e Ares, tentando driblar a morte, acabou morrendo de velhice. No tártaro, o submundo para onde os mortos eram encaminhados, Sísifo foi considerado um grande rebelde e teve um castigo: foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha. Toda vez que ele estivesse quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido. Por esse motivo, a expressão "trabalho de Sísifo", em contextos modernos, é empregada para denotar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso. Algo como um infinito ciclo de investidas que, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.


A relação entre a gênese da mineração e a história econômica da América Latina parece representar o mito de Sísifo, ao repetir ciclicamente uma política do absurdo. Os séculos XIX, XX e XXI estiveram repletos de ciclos de boom da mineração, cujos efeitos finais permitiram o surgimento e manutenção de uma classe econômica rentista e a irremediável deterioração do meio natural, nos territórios explorados, do qual inúmeras famílias retiram seu sustento. Entendemos, então, que a espoliação nos territórios não é uma consequência da indústria de exploração mineral, mas sim uma causa intrínseca.


Houveram vários ciclos de exploração mineral em solo latinoamericano, desde 1492; da prata, do ouro, do ferro, e, mais recentemente, o capital tem apostado no lítio. O novo “ouro branco” que carrega novamente a insígnia de que “desta vez, sim, a mineração nos permitirá avançar rumo ao desenvolvimento”. Segundo Eduardo Galeano, apenas no período entre 1503 e 1660 entraram na Espanha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. Com o avanço das técnicas, em 2020, o Brasil exportou 29 toneladas de ouro, e cerca de 90 toneladas em 2018. Parte desse ouro foi extraída em garimpos ilegais. Aliás, muito se fala dos garimpos ilegais - que, claro, são um grande problema a ser resolvido por meio de uma fiscalização robusta -, mas precisamos destrinchar um pouco mais essa história.


A maior parte do ouro explorado legalmente pertence às gigantes transnacionais. Das toneladas produzidas pelo Brasil todo ano, mais de 75% provém de grandes mineradoras [atenção: não do garimpo]. Dentre elas, a empresa sul-africana AngloGold Ashanti lidera o mercado nacional. Mas, a quem pertence as ações dessa gigante da mineração? São brasileiros/as? Você, por acaso, conhece acionistas majoritários de empresas bilionárias de mineração? Aliás, quantos bi/milionários você conhece? Onde vivem, como vivem e o que comem bilionários acionistas da indústria mineral? Ficou curiose, dá uma olhadinha aqui nos principais titulares de carteiras financeiras pertencentes à AngloGold. Faço aqui um resumo pra que você possa prosseguir na leitura deste texto antes de se perder entre risos desesperados enquanto passa o olho nessa lista: em sua grande maioria, são corporações internacionais que fazem gestão rentista de ativos no mundo. Como afirma a professora e economista Leda Paulani, “o rentismo envolvido na exploração econômica dos recursos contidos no subsolo é dos mais sinistros, pois aqui se trata de transformar em valor excedente recursos esgotáveis, desequilibrando a Natureza e comprometendo as possibilidades futuras de produção material”.


Vivemos sob a égide de subordinação às disposições do poder corporativo global. Com o aumento da demanda por ativos financeiros mais seguros, em um momento de crise econômica provocada pela pandemia da Covid-19, o preço do ouro disparou nos mercados internacionais nos quatro primeiros meses de 2020. Seria esse um estímulo ao garimpo ilegal? O garimpo ilegal seria a causa dos impactos da mineração ou seria uma consequência de um modelo de exploração mineral capitalista e financeirizado?


Como lamenta Aráoz, em seu livro Mineração, genealogia do desastre, vivemos no século XXI e seguimos presos - material e ideologicamente, econômica e politicamente, cultural e geograficamente - aos dispositivos e mecanismos de uma formação social colonial. Períodos passageiros de crescimento do PIB encobrem um processo de empobrecimento contínuo da população. Veja, desde o século XV temos notado a volatilidade desses ciclos de superacumulação de capital proveniente da mineração (o boom das commodities), cujos lucros se concentram, antes, na metrópole, agora, nos territórios capitalistas centrais, ditos desenvolvidos; e notamos também a permanência da miséria e impactos (socioambientais, psicossociais, sociopolíticos - tratados como externalidades negativas do processo), antes, na colônia, agora, nos países capitalistas periféricos. Veio a prata, o ouro, o ferro, o petróleo, o lítio… Nos desenvolvemos?


Lama da Samarco, 2019. (Foto: Júlia Pontés)


Como lócus geopolítico de apropriação diferencial do mundo, o centro cria as instituições, as leis, as regras, os códigos de conduta, as orientações do mercado financeiro e as formas políticas. O colonial periférico, desde sempre, é tratado como espaço subordinado de fornecimento de matéria prima e mão de obra barata, cenário de terra arrasada e corpos anônimos, desumanizados. Desprovidos da subjetividade que é negada ao colonizado, como disse Frantz Fanon.


Mas, não seria essa pobreza [majoritariamente racializada] uma herança colonial?


Estaríamos nós condenados ao mito de Sísifo?


Talita pode ser contatada pelo email tgantus@gmail.com, está nas redes sociais como @gantustalita e publica textos pessoais em www.talitagantus.info

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