• Talita Gantus

Pesquisador é profissão?

“- o que você faz?

- eu sou pesquisador.

- ah, legal, mas eu tava perguntando qual o seu trabalho…”


Pesquisadora em campo. Morro do Chapéu, Chapada Diamantina, Bahia.


Recentemente, saiu uma reportagem que trazia a manchete “Desemprego entre mestres e doutores no Brasil chega a 25%”. De relance, antes de lê-la, a notícia me fez lembrar do dia em que fui ao banco, há pouco mais de um ano atrás, onde a atendente se viu num impasse: no meu contracheque da bolsa de doutorado do CNPq consta como “profissão: pesquisadora”, mas não havia essa opção no sistema. Eu disse, então, que era professora (dou aulas de geografia em um cursinho popular chamado Lélia Gonzalez). Ela me pediu o contracheque e se assustou quando eu disse que dava aulas como voluntária (afinal, o que se espera de jovens de 30 anos?!). Depois de 15 minutos, passando uma por uma das possíveis profissões consideradas plausíveis pelo cadastro do banco, ela decide por “estudante”. Afinal, ao menos o comprovante de matrícula do doutorado dizia isso.


Ri de canto, voltei a mim e encarei, novamente, a reportagem recente que anunciava sobre o desemprego de mestres e doutores no Brasil. Os entrevistados também são jovens de cerca de 30 anos. As queixas são várias e, aqui, tentarei analisá-las sem perder de vista o senso de totalidade, visto que se trata de um fenômeno social. Os dados apresentados sobre os pesquisadores brasileiros são de 35% de mestres fora do mercado de trabalho, e de 25% de desemprego entre os doutores, enquanto no mundo a taxa de desocupação desse grupo gira em torno de 2%.


Antes, queria trazer luz à definição da categoria trabalho, amplamente estudada dentro de diversos campos das ciências. Sob a concepção ontológica aqui colocada, trabalho não se reduz à ‘atividade laborativa ou emprego’, mas à produção de todas as dimensões da vida humana. Na sua dimensão mais crucial, o trabalho aparece como atividade que responde à produção dos elementos necessários e imperativos à vida biológica dos seres humanos.


À primeira vista, essa definição pode parecer inútil. Mas vamos aos fatos: um dia tem 24h. Vamos supor que, na melhor das hipóteses, você dorme cerca de 8h/dia. Suponhamos, ainda, que você gaste 1h para preparar seu café da manhã, fazer sua refeição com calma e limpar o que sujou, 2h para desempenhar as mesmas tarefas no almoço, 1h no lanche da tarde e 2h no jantar, e 8h cumprindo seu horário comercial de trabalho assalariado. Isso resulta em 22 horas do seu dia para desempenhar as tarefas “básicas”, as necessárias para você acordar no dia seguinte e repetir o mesmo processo por 5 dias consecutivos.


Nessa situação fictícia, não contabilizei o tempo de higiene, de ida ao banheiro, à feira, para colocar uma roupa na máquina, e, muito menos, o tempo preciosíssimo desempenhado nas tarefas de parentalidade. Na sociedade capitalista, o trabalho de reprodução social - as tarefas domésticas e de cuidado -, não é considerado trabalho, ficando de fora da conta de horas diárias trabalhadas, nesse caso, principalmente das mulheres.


As atividades extras desempenhadas, mesmo que sejam importantes para sua vida profissional e pessoal, como lecionar, escrever esta coluna, produzir conteúdo para manter este blog, não são consideradas trabalho pela ampla maioria da sociedade - visto que são atividades não remuneradas. Quer dizer, não fazem girar a grande engrenagem do capital.


O tempo para se exercitar, ler um livro, assistir a um filme, contemplar a vida, praticar alguma atividade lúdica, enfim, cuidar da saúde mental, então, passa a ser privilégio, quando deveria ser tratado como saúde pública - já que configura-se em fenômeno social. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas no mundo, cerca de 800.000 pessoas se suicidam a cada ano, e 78% dos suicídios ocorrem em países de baixa e média renda, como o Brasil, sendo o suicídio a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Maria Homem, psicanalista e professora da USP, analisa a sociedade como maníaca e a depressão como a resposta de defesa da mania da nossa cultura. É uma saída errática do vazio de não saber quem somos e o que queremos. O resultado são jovens à deriva.


Apesar de a depressão ter múltiplos elementos que não podem ser generalizados - visto que existem fatores como histórico familiar e psíquico - o fator social é determinante no seu desencadeamento e permanência. Sintoma de uma época que reflete a pouca esperança em relação ao futuro, causada pelas condições cada vez mais insustentáveis nas quais vive. E é neste cenário que a juventude se insere: em um mundo competitivo e cada vez mais individualista. Tais condições não podem ser explicadas sem se compreender o modo de produção capitalista, em que somos enxergados pelo mercado como um amplo exército de reserva no mundo do trabalho e como potenciais consumidores.


Para quem é pós-graduando no Brasil, experimenta-se um desânimo e uma permanente ansiedade em relação ao futuro. Já não é fácil bancar as condições materiais básicas necessárias para reprodução da vida, como alimentação e moradia dignas. A começar pela remuneração, as bolsas federais de pesquisa em 2020, no Brasil, financiadas pela Capes e pelo CNPq, são de R$1.500 para o mestrado e de R$2.200 para o doutorado (independente da cidade - logo, do custo de vida). Enquanto isso, a última pesquisa realizada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos) mostrou que o salário mínimo necessário para se manter uma condição de vida digna no Brasil seria de R$4.536,12 (o salário mínimo nominal vigente é R$1.045). Ao mesmo tempo, cerca de 40% das despesas de consumo da população urbana brasileira vai para moradia.


No Brasil, ao serem [frequentemente] chamados de bolsistas, oculta-se o verdadeiro trabalho desenvolvido pelos pós-graduandos, como se a recompensa pela pesquisa fosse uma bonificação, uma bolsa. A definição de pesquisador como profissão e da bolsa como salário, por sua vez, mudariam o tom da relação e dariam à pessoa o devido reconhecimento pelo papel que desempenha - como qualquer trabalhador na sociedade. Lembro, ainda, que os pesquisadores bolsistas não podem estabelecer vínculo empregatício durante a vigência da bolsa; ou seja, a complementação da renda cai na ilegalidade e na informalidade. Somado a isso, como não há vínculo trabalhista, também não há direitos trabalhistas, não há licença médica nem licença maternidade remuneradas, não há férias, nem 13º, nem previdência, e nem direito ao seguro desemprego para os bolsistas.

Isso quando há bolsas disponíveis nos programas de pós-graduação. A Portaria 34 da Capes, de 2020, publicada no Diário Oficial da União, alterou os critérios de distribuição das bolsas de mestrado e doutorado - retirando bolsas de diversos programas, principalmente os de notas 3, 4, 5, remanejando-as para programas de maiores conceitos, 6 e 7, e causando impactos negativos, como os apresentados nesta notícia. Percebe-se que a gestão educacional segue, então, a mesma lógica social: o de cima sobe e o de baixo desce. Relação que dificulta a equiparação entre universidades devido à distribuição de verba desigual, reforça padrões de regionalização também desiguais e fomenta a competição, minando, muitas vezes, a estrutura da cooperação acadêmica num ambiente já competitivo - visto que reflete padrões sociais.


Pode-se observar no gráfico abaixo a redução considerável do investimento público federal nas agências de fomento à pesquisa ao longo dos últimos anos. Estamos caminhando a passos largos no sentido contrário do que deveria ser o cenário ideal, mesmo com a atual pandemia e com a emergência de movimentos negacionistas que assolam o mundo. Isso tudo reflete em uma permanente ansiedade entre os pós-graduandos de que suas remunerações possam sofrer cortes inesperados com o atual cenário de crise econômica.



Quando se atinge o tão famigerado diploma de mestre(a) ou doutor(a), apresentam-se as incertezas do mercado de trabalho. Com a suspensão de concursos para docência em Universidades e Institutos Federais e a imprevisibilidade de contratação, esses jovens fazem coro à massa de trabalhadores desempregados que, atualmente, atinge patamares de 13% da população brasileira.


A falta de investimentos em museus e centros de pesquisa também é um sintoma da crise educacional no país. A Rede Nacional de Identificação de Museus registra 264 museus de ciências no Brasil, sendo 35% vinculados a universidades. Como o orçamento previsto para o MEC passou de R$84 bilhões em 2015 para R$37 bilhões em 2019, a falta de investimento prejudica a conservação do patrimônio nacional, o financiamento de pesquisas e mina as possibilidades de empregabilidade nesses centros. Lembremos do Museu Nacional ardendo em chamas em 2018 devido à carência de verba para sua manutenção, e do mais recente caso no Museu de História Natural da UFMG. Triste símbolo de um país que abandona seu passado, presente e futuro.


Todo esse cenário, nada favorável, contribui para a fuga de pesquisadores para o exterior. A grande maioria são doutores recém titulados que resolveram deixar o país em busca de melhores oportunidades para desenvolver seu trabalho em um ambiente mais favorável à ciência e de melhores condições para si. Eles seguem uma tendência não registrada nas estatísticas oficiais, uma espécie de diáspora de mão de obra qualificada - mais uma consequência do imperialismo e da dependência dos países da periferia do sistema.


Por fim, registra-se a queixa sobre a falta de aceitação na comunidade acadêmica brasileira de currículos inter e transdisciplinares. Quem nunca ouviu o “conselho” de “não fazer mestrado nem doutorado fora da sua área de formação, porque prejudica nos processos seletivos para a carreira docente”?! Ora, isso poda todas as nossas potencialidades enquanto seres cognitivos e dialógicos. Separamos os cientistas em caixinhas a ponto de um pesquisador não conseguir elaborar sobre a relevância da sua pesquisa para o desenvolvimento humano da nossa sociedade. A ponto de não conseguir fazer convergir a relevância de sua pesquisa para outras áreas do conhecimento. Vive-se a alienação da produção [intelectual], resultado de um sistema que nos reifica, e que impera, também, no mundo acadêmico.


Com a indústria do conhecimento sendo reproduzida na lógica do fordismo, constroem-se muros entre as ciências exatas e as humanas, justamente para que áreas como a geologia e as engenharias permaneçam servindo aos interesses privatistas e não subordinadas às demandas sociais. Assim, chegamos no contra senso de desenvolvermos tecnologias incríveis, como a recuperação com nanopartículas de áreas degradadas, ao passo que apenas 60% da população brasileira tem acesso ao saneamento básico, enquanto o restante lança seu esgoto diretamente nos corpos hídricos.


Precisamos “cortar as seitas acadêmicas e construir alianças colaborativas”; pensar coletivamente em como a ciência pode desenvolver nosso país, associando-a com demandas diretas da população; buscar conhecimento diversificado e crítico, para além do técnico; e se organizar politicamente na busca por direitos, porque a luta se dá no campo das ideias, mas, também, na realidade material e concreta.


Enquanto mais de 90% das pesquisas brasileiras são desenvolvidas nas universidades, principalmente por pós-graduandos, seguimos subjugando-(n)os, num tom pejorativo (como o da atendente do banco), a eternos estudantes: jovens na faixa dos 30 anos, sem emprego formal, desempenhando diversas tarefas menos “trabalho”, que acumulam titulações no lattes e incertos sobre o futuro nada promissor que lhes aguarda.


A disputa que precisamos travar reside na necessidade de avançarmos rumo à soberania intelectual nacional.


Acesse o site www.talitagantus.info e leia mais. Talita também está no instagram como @gantustalita e pode ser contactada pelo email tgantus@gmail.com

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