• Bárbara Zambelli

Por que a credibilidade da ciência anda tão baixa?

Atualizado: Abr 14


Biblioteca da Universidade de Bologna, uma das mais antigas do mundo, fundada em 1088. (Foto: Bárbara Zambelli)


Imagine a Terra como um disco, parado em meio a imensidão do universo. Neste disco, o polo norte estaria no meio e a Antártica nas bordas e os países distribuídos, mais ou menos como se vê na bandeira da ONU. Nós estaríamos vivendo sob um domo, que nos impediria de cair das bordas - lembra daquele filme ‘show de Truman’?


Essa ideia, que provavelmente soa um tanto quanto bizarra na comunidade científica (ainda mais dentre os geocientistas), é uma tendência em países como os Estados Unidos e o Brasil. Segundo o Datafolha, a comunidade de apoiadores brasileiros já ultrapassa os 11 milhões!


Já se especulava sobre a forma redonda do planeta desde a Grécia Antiga. Na verdade, a primeira pessoa a calcular a circunferência da Terra com uma precisão surpreendente foi Eratóstenes, no dia 19 de junho de 240 AC. Medindo o ângulo formado pela sombra de um relógio solar em duas cidades diferentes, ele estimou o comprimento da circunferência terrestre em 46.620km, uma diferença de 16% dos valores medidos utilizando tecnologia atual (40.075km). Desde então, vários cientistas vem provando a esfericidade do planeta usando diferentes experimentos, cálculos, modelos e até mesmo viajando ao espaço sideral. Apesar disso, teorias como Terra Plana continuam a angariar novos adeptos.


Movimentos emergentes como o terraplanismo e o negacionismo sobre as mudanças climáticas (que tem como representante Naomi Seibt, conhecida como Anti-Greta) me fazem questionar porquê a credibilidade da ciência anda tão baixa. Os psicólogos parecem ter algumas dicas para nos ajudar a responder a essa questão. No mundo conectado, a maioria das pessoas busca por informações no vasto mundo da internet, onde se deparam com informações científicas confiáveis mas também muita fake news e desinformação. As pessoas tendem a escolher como ‘confiáveis’ aquelas fontes que mostram argumentos alinhados com seus pontos de vista anteriores. Em outras palavras, quando alguém é confrontado com fatos e informações que contradizem suas crenças ou ideologias, em vez de formar uma nova opinião, suas crenças originais, geralmente, são fortalecidas. Esse é chamado ‘efeito tiro pela culatra’ (do inglês Backfire effect). A combinação desse aspecto do comportamento humano, juntamente com o viés de confirmação e o comportamento de manada, podem nos ajudar a entender o cenário atual de desconfiança. Um estudo publicado nos Estados Unidos mostra que a confiança dos americanos em seus cientistas foi de 35% em 2019. Ou seja, cerca de 1 em cada 3 americanos acredita em cientistas. O estudo também traz os recortes educacionais, políticos, econômicos e por aí vai, mostrando a variação interna em cada grupo. Esse descrédito é um reflexo da era da pós verdade em que estamos vivendo, quando informações falsas e fatos parecem competir de igual para igual. Logo, muitas pessoas estão mais inclinadas a acreditar nas suas próprias crenças ou ideologias do que em evidências científicas.


Clare Sale, em seu TedX sobre como comunicar ciência na era da pós verdade disse que “não é porque você está certo que as pessoas vão te ouvir” (tradução livre).


Como cientista, eu concordo que se dedicar à pesquisa é muito importante. Porém, se as pessoas não acreditam na ciência, para quem estamos produzindo conhecimento?

Como comunicadora científica, acredito que é nosso dever construir as pontes entre a ciência e a sociedade. Como geocientistas, podemos explorar como riscos geológicos ameaçam comunidades inteiras ou trabalhar com as águas subterrâneas visando o acesso democrático à água potável. Conseguimos elucidar como a geomorfologia se relaciona com a mobilidade urbana. Somos capazes de explorar a geoética e a soberania popular em projetos de mineração. Temos um amplo espectro de opções. A única coisa que não podemos fazer é conversar apenas entre nossos pares. Precisamos nos envolver com a comunidade simplesmente porque fazemos parte dela. Atuando no território, podemos aprender com as comunidades sobre suas necessidades e desenvolver estratégias conjuntas de enfrentamento dos problemas. Para isso, precisamos ter clareza na comunicação, evitar jargões, ser acessível, honesto e humilde. É ótimo trabalhar em uma equipe multidisciplinar, conversar com designers e tentar simplificar a mensagem o máximo possível. Ao fazer isso, poderíamos, quem sabe, mudar a percepção pública das geociências (aqui tem um texto onde faço uma breve leitura sobre a percepção das geociências em Minas Gerais).


Então, talvez, se nós, geocientistas, focássemos mais tempo e energia comunicando nossos estudos e descobertas ao público em geral, poderíamos conter a disseminação de teorias da conspiração como o terraplanismo.

Para concluir, eu gostaria de deixar aqui um convite para todos os meus colegas cientistas: vamos tornar nossas pesquisas acessíveis! Use mídias sociais, instagram, youtube, twitter, crie jogos, podcasts, músicas, coreografias, qualquer coisa. Descubra seu talento! Compartilhe, inspire e engaje seus amigos a fazerem o mesmo!



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