• Talita Gantus

Quem são os responsáveis pela crise climática?

Atualizado: Abr 14

A crise ecológica é, atualmente, a questão social e política mais importante do século XXI, e tende a ganhar protagonismo nas próximas décadas. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), se a temperatura média do planeta subir mais de 1,5°C, é provável que um processo irreversível de mudanças climáticas seja posto em marcha. Alguns exemplos dessas consequências são: a multiplicação de mega-incêndios como o da Austrália; o desaparecimento de rios e a desertificação de terra, diminuindo ainda mais a biodiversidade e a disponibilidade de alimentos; e o derretimento das calotas polares e a consequente elevação do nível do mar em até dezenas de metros, ameaçando regiões litorâneas a desaparecerem debaixo do oceano.


A natureza complexa da crise ecológica atual postula diferentes versões e causalidades para explicar as mudanças ambientais contemporâneas. Os efeitos do crescimento populacional e das atividade econômicas têm provocado uma crescente disputa de interpretação sobre a relação sociedade e natureza. E sobre como essa relação conforma a crise atual.


Recentemente, o debate ambiental foi retomado, principalmente pela comunidade geológica (de onde falo), pela difusão do conceito Antropoceno. Este é o nome dado a essa nova época geológica em que vivemos hoje, marcada pela industrialização e pela capacidade humana de intervenção nos processos da Terra.


Interação entre ambiente natural e ambiente construído. Bairro Santa Tereza, Rio de Janeiro, Brasil. (Foto: Bárbara Zambelli)


Por mais que a narrativa do Antropoceno seja importante para demarcar e mensurar fenômenos e efeitos, ela nos descola da natureza ao tratar a humanidade em termos de poder e desigualdade face ao sistema Terra. Ao tornar a experiência humana, ou as atividades antrópicas, uma força fora de controle e acima da natureza, a ideia de colapso ambiental triunfa como produto da ganância. Assim, apesar de mostrar as taxas e a velocidade das mudanças ambientais (o que é importante e necessário), o Antropoceno ofusca as concepções ontológicas, históricas e políticas da crise. Ao que, na perspectiva de Ailton Krenak, nos aliena desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ela é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade.


A figura do “Anthropos” - do grego, humano - na superfície da Terra se apresenta como uma enorme variedade de versões e possibilidades. Dessa forma, revela-se a necessidade de compreender as postulações históricas da fenomenologia da crise ecológica. Afinal, há diferentes humanidades e diferentes trajetórias humanas.


No discurso sobre as mudanças climáticas, tal como se desenvolveu no meio acadêmico ocidental (principalmente naquele eurocentrado), na mídia e nos grupos que formulam as políticas ao longo dos últimos séculos, diz-se que o problema foi criado por todos nós. O aquecimento global é, portanto, culpa da espécie humana como um todo.


Em oposição ao Antropoceno surge a ideia do Capitaloceno, termo cunhado por Jason Moore, que desloca o eixo de análise - antes centrado no ser humano - para o modelo econômico vigente. Ele traz uma reflexão a partir da observação do processo histórico de apropriação da natureza pelo capitalismo, a fim de reorganizar o mundo material.


O capitalismo verde, mercados de crédito de emissões e outras manipulações da chamada “economia de mercado sustentável” provaram ser completamente ineficazes no que diz respeito à preservação ambiental e à mitigação das mudanças climáticas. Em suma, não há solução para a crise ecológica dentro do capitalismo. Isso porque ele é inteiramente dedicado ao produtivismo, ao consumismo, à luta feroz pelas quotas de mercado, à acumulação de capital e à maximização do lucro.


Um exemplo disso é a cadeia de exploração mineral. A comunidade geológica tem consciência de que um minério precisa de condições ambientais específicas para se formar e que esse processo dura milhões de anos. Enquanto isso, em décadas levamos depósitos minerais não renováveis à exaustão. Não para suprir uma demanda intrínseca e necessária aos seres humanos, ou a diferentes modos de bem viver, mas para alimentar o mercado de eletrônicos, por exemplo, construído em uma lógica de obsolescência programada e de fomento ao consumo, muito condicionado ao status socioeconômico e ao marketing.


Dessa maneira, as únicas alternativas eficazes, capazes de evitar o desastre iminente, seriam as antissistêmicas, ou seja, anticapitalistas. Nesse sentido, Michel Löwy propõe o ecossocialismo, "um socialismo ecológico que esteja à altura dos desafios do século XXI, que se reivindica de Marx, mas rompe explicitamente com o modelo produtivista.”


No ecossocialismo, “as forças produtivas também devem ser radicalmente transformadas: (i) mudando suas fontes de energia (renováveis ao invés de combustíveis fósseis); (ii) reduzindo o consumo global de energia; (iii) reduzindo a produção de bens e eliminando atividades desnecessárias (publicidade) e pragas (pesticidas, armas de guerra); (iv) pondo um fim à obsolescência programada. O ecossocialismo também implica na transformação dos padrões de consumo, das formas de transporte, do planejamento urbano, e do modo de vida.”


É uma mudança civilizacional, baseada em valores de solidariedade, igualdade-liberdade e respeito pela natureza.

Por essa perspectiva, é possível romper com a ideia de que os agricultores de subsistência do povo Kalunga, que recorrem à venda dos excedentes em feiras e ao turismo de base comunitária para complementar sua renda, contribuem para o aquecimento global simplesmente por pertencerem à espécie Homo sapiens. Assim como seus antepassados, escravizados trazidos de África para o Brasil. Assim como os povos originários, que aqui viviam antes de os europeus invadirem estas terras para colonizar, saquear e, por fim, dizimar comunidades indígenas, suas cosmovisões e seus modos de bem viver.


Sabemos que o descobrimento da América foi o encobrimento dos povos que aqui viviam. Nas palavras de Carlos Walter Porto-Gonçalves, geógrafo brasileiro, no livro Descolonizar o imaginário, “tomar 1492 como marco para a América é invisibilizar e inviabilizar povos ancestrais que se reinventaram em re-existência nesses últimos 500 anos de invasão.”


Ao rompermos com a ideia estruturada por trás do Antropoceno, rompemos também com a culpabilização de populações – que nunca contribuíram para a manutenção desse modelo – simplesmente por pertencerem à mesma espécie que os grandes empresários.


Incoerente é o fato de que menos de 1% detém 45,2% da renda produzida no planeta Terra por meio da exploração de trabalhadores. Os 2.153 bilionários do mundo têm, juntos, mais “riqueza” do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial. Essa proeza só é possível por meio da dominação dos aparatos que constroem o senso comum, vendendo a ideia de que não é possível mudar essa realidade. É isso que Paulo Freire chamava de fatalismo, e que sempre me vêm à mente quando me sinto paralisada diante de tantas crises que se interseccionam - evidenciadas, agora, pela covid-19 (sanitária, ambiental, econômica, social).


Ao rompermos com a ideia homogênea de civilização, nos aproximamos de uma cosmovisão que contemple nossa espécie numa relação simbiótica com o planeta. E, assim, percebemos que o problema não está, necessariamente, na espécie humana como um todo, mas sim na forma como uma minoria impõe sobre a maioria a concepção de que o modelo econômico vigente é mais importante que a vida, que a natureza.


Ou, como disse Ailton Krenak em Ideias para adiar o fim do mundo, “talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu?”


Na busca da mudança de paradigma e na tentativa de cooptar pessoas numa luta coletiva para que, nessa queda, uma levante e puxe a outra, termino com as palavras incentivadoras de Brecht:


“Não aceites o habitual como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”


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