• Talita Gantus

Relações de espaço: pensar a cidade LGBTQIA+

Habitar, produzir, usufruir, existir e amar livremente na cidade é um direito de todas as pessoas. Sabemos que a sensação de insegurança é uma triste realidade em nossas cidades. Porém, essa mesma insegurança não é vivenciada de modo igual, podendo afetar mais ou menos o cotidiano de uma pessoa dependendo da sua raça, orientação sexual e gênero.


Manifestação da Parada LGBT++ em Curitiba, 2018. (Foto: Talita Gantus)


O medo constante também é uma forma de violência. Mudar quem você é para se sentir em segurança nos espaços públicos também é uma forma de violação do seu direito à cidade. Aproveitando para entrar no clima do tema da revista Conexão de Saberes n.6, vamos um pouco mais a fundo nesse conceito: o direito à cidade foi uma expressão originalmente cunhada pelo filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, em 1968, mesmo ano em que emergiu um potente movimento político da juventude engajada na luta por direitos civis, liberação sexual, oposição ao conservadorismo e crítica à guerra no Vietnã.


Lefebvre percebeu que as cidades haviam se convertido no local de reprodução das relações capitalistas - antes enraizadas nos campos. Também notou que a resistência das trabalhadoras e trabalhadores constituía contradições que escancaravam a segregação socioespacial, atravessada pelas relações de opressão capitalista, racista, generificada e cisheteronormativa.


O direito à cidade, portanto, trata de um direito humano e coletivo, que diz respeito tanto a quem nela vive hoje quanto às futuras gerações. É um compromisso ético e político de defesa de um bem comum essencial a uma vida plena e digna em oposição à mercantilização dos territórios, da natureza e das pessoas. Todavia, esse direito não é vivido plenamente, pois há uma customização da democracia no Brasil, profundamente relacionada ao padrão universal: homem-branco-rico-cis-hetero.


Em poucas palavras, estar fora dos padrões é também ter dificuldade de acessar a cidade.


Como nos conta Amara Moira, em seu artigo A experiência da cidade: antes e depois: “Vinte e nove anos em que transitei pelas ruas de cidades grandes e pequenas sem maiores preocupações do que um atropelamento, um furto, assalto a mão armada, eu e a minha máscara de pelos faciais, a minha pele branca, roupas bem cuidadas e um português normativo. Existindo à época como homem branco cisgênero, com cara de heterossexual, não afeminado, magro, sem deficiência e nitidamente oriundo das classes médias urbanas, as cidades abriam suas portas para mim e eu sentia enorme prazer em percorrer, o máximo possível de transporte público ou a pé, suas ruas e espaços centrais. Agora, ao transitar pelas ruas, eu me torno também o corpo sempre apontado, xingado e ameaçado, o corpo que não passa despercebido em lugar algum, o corpo que se libertou e se tornou farol tanto para os que ainda estão presos (e é desses, em geral, que receberei o assédio sexual, pois verão em mim não a pessoa que sou, mas apenas uma forma rápida de saciar seus desejos reprimidos) quanto para os que têm medo do mundo que minha existência anuncia (e é desses, em geral, que receberei a agressão física e verbal, pois a eliminação e segregação de corpos como o meu é a melhor maneira de não precisar se reinventar para aprender seja a conviver conosco seja a reconhecer como legítimas as nossas existências).


A perseguição a LGBTQIA+s nos expulsou de nossos lares e empregos, jogou nossas famílias e amigos contra nós, não raro fazendo com que nós mesmos e mesmas nos odiássemos, e em boa medida só nos permite vivenciar o prazer dentro dessa extrema precariedade, correndo sempre o risco de adoecermos ou sermos presos e chantageados. Com a minha transição, porém, o armário deixa de ser uma possibilidade, pois meu corpo me denuncia aonde quer que eu esteja, independente do que eu faça. Aqui começa um outro estágio da minha relação com a cidade, estágio em que descubro que meu corpo não só não impõe mais respeito, como agora parece pedir para ser olhado, tocado e agredido. Durante os 29 anos que existi como homem, nunca ninguém tentou tocar-me sem meu consentimento, mas bastou eu começar a ser lida como travesti para passar a viver experiências recorrentes de assédio e abuso no espaço público.”


Pensar no direito à cidade é pensar em cidades justas e acolhedoras, onde a violência seletiva não vitimize lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e travestis, e em que todes possamos ter o direito de existir e de ocupar os espaços. A expectativa de vida das pessoas trans no Brasil, atualmente, é de 35 anos, enquanto a média nacional é de 75 anos. A cada 60 minutos, 1 pessoa LGBT sofre violência no Brasil; enquanto a cada 16 horas, 1 deles é assassinade.


“Se as pequenas demonstrações de afeto forem entre pessoas LGBT, dificilmente passarão despercebidas e as reações podem variar numa escala de hostilidade entre o olhar de reprovação à violência física. É a manifestação do afeto transformada em atividade de risco”, afirmam Rodolfo Vianna e Luiza Coppieters.


Acionando a Lei de Acesso à Informação, uma reportagem traçou o que se chamou de “Mapa da Homofobia” na cidade de São Paulo. Segundo dados da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), foi registrada em média uma queixa de crime por motivação homofóbica por semana na cidade de São Paulo. Entretanto, Rodolfo e Luiza, em seu artigo A cidade hostil ao afeto LGBT, apontam uma ressalva a essas estatísticas: como a homolesbotransfobia ainda não é crime no Brasil, as denúncias são enquadradas de acordo com a tipificação do crime correlato, que vão de injúrias a lesões corporais. Os dados de homicídio não são registrados neste levantamento por terem outros procedimentos investigativos legais. Os principais casos estão circunscritos à região central da cidade, onde estão as ruas Augusta e da Consolação e a República e o Largo do Arouche, locais bastante frequentados pelo público LGBT.


Isso posto, o que as geociências podem nos apontar sobre a questão que se coloca: como pensar no direito à cidade para que possamos existir e amar sem medo?


Sujeites políticos constroem a luta todos os dias ao transitarem pelo território, colocando seu corpo e seu modo de presença nos espaços públicos. Mas, uma ferramenta de suma importância que deve ser mais apropriada para se pensar a cidade e agir na cidade, transformando-a pela práxis, é a base de dados censitários. Aliás, aqui, um adendo: não bastasse a realização do censo no Brasil carecer de melhorias e financiamento para uma expansão - afinal, um intervalo de 10 anos não captura as nuances socioeconômicas que influenciam na produção do espaço -, vivemos um apagamento de dados no pior momento histórico dos últimos tempos com a não realização da campanha de coleta em 2020. Pensar e agir na cidade de maneira informada pela espacialização desses dados, de modo que as representações cartográficas nos elucidem sobre a realidade material e concreta nos territórios, pode ser uma estratégia interessante. Somado a isso, é claro, precisamos nos organizar coletivamente para derrubarmos as estruturas sociais que produzem corpos, territórios e corpos-territórios marcados pela opressão capitalista, racista, cisheteronormativa e patriarcal, que, no fundo, estão unidas em uma mesma estrutura.


Mapear as demandas de segurança, lazer e necessidades da população LGBTQIA+ para pensarmos políticas públicas informadas. E, assim, construirmos cidades mais inclusivas, que acolham o amor e suas expressões.


Aproveito para compartilhar a base de dados do TODXS, ONG que, além de diversas ações, possui um acervo bibliográfico que pode subsidiar pesquisas que queiram se aprofundar na temática.


Talita pode ser contatada pelo email tgantus@gmail.com, está nas redes sociais como @gantustalita e publica textos pessoais em www.talitagantus.info Sobre a autora acesse aqui.

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