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Sempre estiveram aqui

O mote deste texto é a “Pré-História” do Brasil. O termo foi usado durante muito tempo para tratar dos registros das manifestações da ocupação humana no nosso país antes do período da colonização europeia. Mais recentemente, as correntes mais modernas da arqueologia brasileira vêm tratando esse período como período "pré-colonial”, o que dá a ideia de continuidade, fluidez temporal, deixando de entender a mudança da cultura material a partir da chegada de europeus no continente como barreira ou quebra. Tal termo é pensado como uma solução no sentido de sequenciamento, sendo mais aplicável para tratar da ocupação dos povos europeus, tanto na América, quanto na África e na Oceania. Os termos “pré-colonial” e “pós-colonial”, apesar de serem mais adequados, devem ainda ser pensados e analisados, visto a grande extensão territorial do nosso país e o diacronismo nos processos de chegada e instalação dos povos no território.


Furna do Caboclo em Carnaúba dos Dantas. (Foto: Caio Tavares)


Furna do Caboclo em Carnaúba dos Dantas. (Foto: Caio Tavares)


Sítio da Pedra Ferrada. (Foto: Caio Tavares)


Em texto muito bem elaborado, o historiador, arqueólogo e professor, Abrahão Sanderson da Silva disserta sobre a “Estratigrafia do Abandono" e a maneira pela qual o passado antes da chegada dos povos europeus ficou subjugado a olhares estrangeiros e indiferentes aos seus vestígios. Estudando realidades institucionais distintas, o autor busca contribuir para a percepção não só do potencial informativo, mas também comunicativo das coleções arqueológicas dos museus potiguares [aqui, um adendo: potiguar relaciona-se ao natural de Natal, Rio Grande do Norte]. Esse processo de submissão submissão aos ocupantes europeus e seus descendentes se reflete na “musealização” do patrimônio material e imaterial dos povos originários do nosso território, causando o seu distanciamento do cotidiano da população brasileira, em detrimento dos processos “históricos” dos novos ocupantes e da formação de uma “identidade nacional”.


O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é uma autarquia federal vinculada ao Ministério do Turismo que responde pela preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro. Cabe ao IPHAN proteger e promover os bens culturais do País, assegurando sua permanência e usufruto para as gerações presentes e futuras. Mas, na prática, não tem sido bem assim...


Enclave Arqueológico Pedra Ferrada.


Um bom exemplo é a construção da Barragem de Oiticica, no estado do Rio Grande do Norte. A barragem, distante cerca de 18 km do município de Jucurutu, foi planejada para represar as águas do Rio Piranhas e terá capacidade para acumular 560 milhões de metros cúbicos, com um espelho d’água de, mais ou menos, 5.998,81 hectares - 1 campo de futebol corresponde a 1 ha -, distribuído, entre os municípios de Jardim de Piranhas (2.668,98 ha), Jucurutu (1.183,85 ha) e São Fernando (2.145,98 ha), todos pertencentes à região do Seridó Potiguar.


A construção desse reservatório foi planejada para suprir a demanda por água da região, que historicamente sofre com secas severas. Entretanto, o local escolhido para a construção da mesma fará com que alguns sítios arqueológicos (alguns deles cadastrados pelo IPHAN, como o Sítio Arqueológico Pedra Ferrada - representado nas fotos acima) fiquem totalmente submersos. Para se ter uma ideia da importância do patrimônio histórico que está em risco com a realização da obra, alguns trabalhos acadêmicos foram desenvolvidos na área, com destaque para uma dissertação de mestrado que teve como objetivo analisar e documentar os registros rupestres da área antes da concretização do empreendimento. O autor, o historiador e arqueólogo Mizael Manoel Santos da Costa, assim traz no texto: “O impacto arqueológico [com a construção da barragem] é incalculável. Como exemplo, têm-se os sítios de nossa pesquisa, pois ninguém os conhecia e, pelo que parece, o Estado não tomou as medidas cabíveis para o levantamento arqueológico da área, o qual poderia identificá-los. Assim, perguntamo-nos: se em uma pequena área de mais ou menos sessenta e nove (69) hectares foram encontrados oito (08) sítios arqueológicos, quantos sítios não serão perdidos com a inundação?”


Mas, mais do que questões acerca do patrimônio material, a cultura imaterial e a ancestralidade do povo brasileiro necessitam de maior atenção e uma nova abordagem. Devem ser trazidos ao ensino básico e, mais do que isso, ao nosso cotidiano, à nossa realidade. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, 42,7% dos brasileiros se declararam como brancos, 46,8% como pardos, 9,4% como pretos e 1,1% como amarelos ou indígenas. Ou seja, eles ainda estão aqui. E esse processo torna-se fundamental na inserção destes sujeitos políticos no contexto histórico na (re)formação do Brasil. Sempre estiveram aqui.



Post Script – Informação adicional


Durante minhas investigações de campo no Seridó paraibano, tive a oportunidade de conhecer o senhor Udenilson Silveira, membro do Conselho Municipal de Turismo de Picuí – COMTUR que me informou a seguinte história:


“Em 1974, na Serra das Flechas, município de Pedra Lavrada, na Paraíba, uma mulher foi encontrada em uma das várias grutas da serra, por um agricultor que tocava a plantação, tentando descobrir o mistério do roubo de produtos do seu roçado. A mulher encontrada foi aprisionada e levada até a cidade para a casa do então prefeito da época, o Sr. Manoel Júlio, que passou a tomar conta da mulher que foi “domesticada” e recebeu o nome de Aparecida. Em 2010, estive na sua casa (juntamente com meu amigo Mahcsuel Procópio), quando o mesmo e sua esposa, Srª Irene, falaram sobre aquela estranha mulher. Segundo Dona Irene, aquela mulher nada falava de português, exceto a palavra "caju". Aparecida também tinha medo de chuveiro, televisão, etc., gostava de roupas coloridas e de bijuterias. Segundo o depoimento do Sr. Manoel Júlio, Aparecida veio a falecer na cidade de Parelhas em 1976, devido a problemas renais. A foto foi tirada no dia que a mulher foi levada para a cidade. Notem que toda a sua vestimenta é de fibras de agave e caroá, na "sacola" que ela agarra foram encontradas pedras e um tatu peba assado.”


Foto do acervo pessoal do Sr. Manoel Julio.



[Nota da editora: Esse artigo expressa a opinião pessoal da autora. Essas opiniões não necessariamente refletem um posicionamento oficial d’a_Ponte]



Caio é Técnico em Geologia, Geólogo e Espeleólogo. Apaixonado pelas ciências e desde sempre interessado pelas questões socioambientais, vem desenvolvendo desde os tempos de técnico estudos voltados para a caracterização, uso e ocupação do meio físico. Atualmente trabalha na empresa MAP Ambiental realizando estudos geotécnicos para o ramo das energias renováveis no Nordeste do Brasil, e é pós-graduando em Geoquímica e Geotectônica na USP. Caio também é autor do livro Microtexturas em Rochas Ígneas.

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