revista #2

O planeta está febril. Arde pelas mudanças climáticas que alteram a temperatura nos diversos biomas, pela poluição, pela derrubada de florestas, pelas queimadas, pelo soterramento de nascentes, pelo colapso dos rios. 

 

Na contramão do que se esperaria em uma premente crise climática - a se somar às crises hídrica, sanitária, ambiental, ecológica, política e humanitária -, a lógica imperativa do lucro acima de tudo segue fazendo o seu melhor: espoliando a Terra, expropriando pessoas de seus territórios, interrompendo com suas práticas e modos de vida que enxergam os rios como entidades da Natureza.

 

A visão utilitarista da água é interesseira e colonialista. Só se envolve pela possibilidade de valor de troca e, para atingir seu objetivo, transforma tudo em mercadoria. É preciso relembrá-la: água é vida. Não é demais dizer que sem água não haveria vida na Terra. 

 

Se acabarmos com a “água de beber, camará”, o que será? Correremos para buscar água em Marte? Estranho, na verdade, é esse futuro distópico fazer parte da atualidade. Décadas atrás, prevendo o futuro, Carlos Drummond poetizou - representado aqui numa singela paráfrase:

O homem, bicho da terra tão pequeno

Seca a Terra e enjoa dela

Lugar de muita miséria e pouca diversão,

Sem alternativa, vai procurar água em Marte

Experimenta

Coloniza

Civiliza

Humaniza Marte com engenho e arte

Degrada Marte, desmata Marte, seca Marte

Vê o visto - é isto?

Idem idem idem

Secaremos a Terra para chegarmos em Marte e… idem? Cidades ergueram-se sobre os rios dos quais dependemos para sobreviver, polui-se as águas que nos garantiriam segurança hídrica. E as florestas, guardiãs das águas, derruba-se. No lugar, inventa-se as barragens. 

 

Durante uma mesa no Fórum Mundial da Água de 2018, intitulada ‘Direitos do rio: perspectiva das pessoas e dos cidadãos diante do direito ambiental’, Ailton Krenak alertou: “se temos que legislar para dizer que um rio não pode virar um esgoto, nós perdemos totalmente a reverência e o sentido de afeto com a Terra.

 

Não aceites o habitual como coisa natural”, diria Brecht.

É preciso repensarmos a ocupação humana.

É preciso que o rio se sinta pertencente ao espaço urbano, e isso só será possível quando dele cuidarmos com o devido zelo. 

Precisamos da natureza e da floresta em todo lugar. 

Os tempos são de reflorestar para, assim, continuarmos a colher águas.

A floresta urbana seria esta flor que resta na urbe?

 

Com o objetivo de descolonizarmos nosso imaginário sobre a água, trazemos um breve material que aborda os conflitos socioambientais em torno da construção de barragens hídricas. Conexão de saberes é o nome, mas também a missão, e foi construída com bastante carinho e a muitas e ancestrais mãos, corpos, mentes.

 

Plante a semente: espalhe a palavra!

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Nessa edição você encontra:

- onde está a água?
- direito à água: uma aposta nas          alternativas
- para ter água é preciso reflorestar!
- insegurança hídrica: uma injustiça
  ambiental que vai além da
  ineficiência da gestão
- a importância da floresta urbana
- quem arquiteta a cidade?

elaboramos essa playlist coletiva para lembrar que somos água - ouça aqui

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revista #1

Segundo Platão, na 'Alegoria da Caverna', "o homem só poderia se libertar da ignorância quando saísse do mundo das sombras e visse o mundo real do lado de fora". Fazendo uma releitura dessa alegoria a partir de um olhar espeleológico, é impossível não se impressionar com as belezas escondidas pela escuridão absoluta, inúmeras espécies endógenas e curiosas formações rochosas em um ambiente tão delicado e único,  abrindo caminhos a um mundo novo, até então desconhecido. Para além da materialidade das cavernas, existem várias outras cosmovisões associadas a esses ambientes, que comumente são relegadas pelo conhecimento racional. Talvez seja isso o que nos impede de nos sentirmos parte integrante de um sistema planetário e de superar a dicotomia humano-natureza: a racionalização excessiva.

 

Para descolonizar o imaginário de uma filosofia (quase sempre) eurocentrada e racional, viemos trazer à luz das ideias a importância material, imaterial e simbólica que o infindo ecossistema conectado por uma caverna pode trazer consigo. 

 

Esse ecossistema compreende um universo para além das infinitas espécies de fauna e flora que (re)existem para, de fato, existir nessa época geológica - chamada por umas de Antropoceno, por outras de Capitaloceno. Avanço da mineração, dos grandes empreendimentos, dos gananciosos circuitos da indústria turística, do agronegócio: se, depois disso, sobrar, por fim, uma estalactite intacta, uma árvore em pé, uma gota de rio limpo e um ancestral vivo para contar a história, talvez seja tarde demais. Queremos todos vivos e de pé. Somos muitas espécies e seres dividindo espaço na Terra, e são bastante diversas as formas de bem viver no mundo. 

 

Nas palavras de Ailton Krenak, liderança indígena, “precisamos romper com a ideia plasmada de humanidade homogênea”. Precisamos superar a ideia de crescimento econômico que reduz a concepção de desenvolvimento. Com o objetivo de apresentar contribuições e estimular o engajamento de novas pesquisas e ações no campo da educação ambiental e cultural críticas, trazemos um breve material que aborda a percepção, a interpretação e a conscientização como alternativas para a preservação das cavernas, o fomento ao turismo de base comunitária e a visibilização de culturas e modos de vida relegados pelo poder público e desconhecidos por grande parte da sociedade. Conexão de saberes é o nome, mas também a missão, e foi construída com bastante carinho e a muitas e ancestrais mãos, corpos, mentes.

 

Plante a semente: espalhe a palavra!

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Nessa edição você encontra:

- manifesto espeleológico
- mineração e seus impactos sociais, ambientais e culturais
- a espeleologia como alternativa sustentável para o desenvolvimento social local
- a percepção como aliada da preservação
- turismo como prática sociocultural
- turismo de base comunitária

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